A astúcia de Boi-lambeu

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         Houve uma época em que o Careca passou por um transe difícil. Vira-e-mexe, mexe-e-vira, volta e meia o seu pé direito dava de inchar e aquele incômodo já estava passando dos limites. Toda manhã lá vinha ele pela calçada em direção ao seu estabelecimento etílico-medicinal, vulgarmente chamado de bar, arrastando aquele dezinfeliz pé, talqualmente fosse um rôdo. Dava dó de se ver e o Dr. Domingues, convocado pelo Serjão, após examinar o dito cujo pé, diagnosticou :

            — Na-não pa-pode, na-não pa-pode ba-beber ; Na-não pa-pode, na-não pa-pode fa-fumar ; Na-não pa-pode pa-pensar em sa-sa , em sa-sa , em sa-sa-saliência.

         Diagnóstico terrível, recomendações médicas quase impossíveis de serem seguidas. Mas médico é médico e “na-na-ni, e na-na-ni ninguém pa-pa-pode, pa-pa-pode deso-be-dê, deso-be-dê, desobedecer “, credo, cara ! isso pega  !!!

         Mas o Careca era relutante e muito do teimoso e foi levando o problema com a barriga ... e sem a ajuda do pé. Daí aconteceu a 1ª internação, depois a 2ª e, logo a seguir veio a 3ª. O Careca entrava e saía do hospital com tanta freqüência que o Serjão do alto de toda a sua seriedade resumiu a questão:

            — O Careca entra, o Careca sai ; o Careca entra, o Careca sai ; o Careca entra, o Careca sai . Isso já está até ficando uma coisa assim um tanto difícil de se explicar pros menores de idade... 

         Mas dizem que tantas vezes o cântaro vai à fonte, que um dia o vaso quebra. Vai daí que de uma certa feita, o Careca teria que ficar internado por vários dias. E agora ? quem assumiria o comando do etílico estabelecimento ? quem atenderia à demanda de tão seleta freguesia em busca do medicamentoso elixir ali fornecido ?

        É aí então que se descobre o verdadeiro amigo , é aí justo nessa hora que se vê com quem se pode contar. Foi aí então que Boi-lambeu se apresentou e bateu o martelo:

         — Deixa comigo, que disso eu entendo!!! O careca não irá ficar desamparado num momento desses, ele pode contar comigo.

        A Miriam, mui laboriosa patroa da pessoa do Careca, viu que estava sem –pai-nem-mãe naquela situação e não teve como recusar tão generosa ajuda. Porém, obtemperou :

           — Eu aceito, mas prestatenção !, não pode beber aqui dentro !!!

        Selado o acordo, já no dia seguinte Boi-lambeu assumiu o comando da distribuição das etílicas poções e salutares infusões do afamado empório:

           — Bota uma Velho Barreiro !

           — Me dá uma 51 !

           — Capricha na Três Fazendas !

           — Quero aquela de arrebentar os peito !!!

           — Me dá a especial do Careca !

           — Manda uma daquela que descaroçou o João Caroço !!!

           — Uma Brahma pra Diretoria !

           — Três fichinhas prá sinuca !

           — Rapaz ! Marlene tinha quase dois metro e quinze !!!

           — Boi-lambeu ! não bota mais nada pro Dinho-Prêto que ele já começou a falar na língua nagô !!!

        Foi uma tarde-noite daquelas de muito movimento. No comando das ações, Boi-lambeu multiplicava-se por dez, atencioso e solícito, doublé de barman e farmacêutico. Dentro da boca, a língua sequiosa e saudosa das habituais doses, dava pinotes mil, dava saltos mais incríveis e mirabolantes que a performance do mais ágil acrobata do famoso Cirque du Soleil.

        No dia seguinte, ali por volta das seis da tarde, deu-se o infausto. De repente, não mais do que de repente, assim sem mais nem menos, foi aí então que Boi-lambeu travou. O olhar perdido no vazio, fitando o nada absoluto, Boi-lambeu perguntou:

           — O que é que você quer ?

        Passando para o lado dos fregueses, Boi-lambeu esmurrou o balcão e exigiu rudemente :

           — Capricha uma especial do Careca !!!

        De volta ao lado de dentro, Boi-lambeu serviu uma dose ao imaginário freguês. De volta ao lado de fora o exigente cliente olhou bem dentro dos olhos do imaginário barman e disse :

           — Deixa de ser muquirana, tu tá puxando o saco do Careca ?!? bota uma dose maior seu filho-duma-que-ronca-e-fuça !!!

        E aí ficou indo e vindo naquela ciranda pra lá e pra cá, servindo e discutindo consigo mesmo. Atendeu, foi atendido, serviu, bebeu, pagou, deu troco, xingou, foi xingado, fez que ia embora e voltou pra trás do balcão.

        Miriam a tudo assistia educadamente. Ao fim da surrealista comédia, não conteve a sua indignação e disse :

           — Eu avisei que não podia beber aqui dentro.

        Aí então, Boi-lambeu invocando o testemunho dos presentes disse pra Miriam :

           — Mas eu não bebi aqui dentro. Bebi lá fora e paguei e não mandei pendurar e paguei na bucha.

         Ainda bem que o Careca não demorou muito em sua estadia no Spa do São José Operário.

         Do aqui relatado episódio, a Miriam só disse uma coisa:

           — Boi-lambeu de ajudante ? nunca mais !!!

 

Cabo Frio, 13 de janeiro de 2010.

Sergio Santa Rita


 


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