Frutos do mar...

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Naquela noite ao chegar em casa, o Exm° Dr. Esperídio, mui digníssimo Desembargador por concurso , outorga e merecimento, sobraçava volumoso material jurídico. No entanto, apenas uma questão se impunha em sua mente : estava deverasmente determinado a conceder àquele já não tão jovem cabista uma especial comenda.

O cabista e o prócere das lides jurídicas haviam se conhecido no Bar 90°, afamado reduto da boemia local . Já combalido e nauseado dos enfadonhos embates forenses e bastante enfarado do emaranhado cipoal de recursos advocatícios, o bravo Desembargador ficara muito impressionado com o linguajar desabrido, áspero e o mais das vezes chulo do desbocado cabista. E já no primeiro encontro tomou-se de amores por aquele que tão vivamente lhe lembrava a sua já tão distante juventude.

Ao adentrar a portentosa mansão, encaminhou-se para o seu espaçoso escritório e municiado de generosa dose de uísque Logan 18 anos, pegou de papel timbrado e iniciou de próprio punho:

— Determino a todos os Foros desta e de outras Comarcas tidas e havidas em todo este País, que a partir da presente data seja ao abaixo discriminado outorgado o Título de “ Doutor Honoris Causa em Xaréus , Faquécos e Similares “, conforme a mim faculta para este tanto todos os títulos e poderes de que me acho investido e revestido, nos conformes da Lei, de acordo com as jurisprudências e pareceres jurídicos emanados das mais Altas Supremas Cortes ...

E foi aí que deu-se o desenlace ...

Acometido de traiçoeiro mal-súbito, tombou-lhe da mão a sábia pena jurídica. Ainda tentou, em vão, segurar o copo de uísque , e então bradou :

— Helinho Diabo !!! socorro !!!

Alguns meses depois, o quase causídico cabista encontrava-se sozinho na curva-do-vento, lá no Bar 90° , e meditava :

— Ah ! se o Doutor Esperídio não passa mal ...

Já eram quase 10 horas da noite, o movimento havia sido intenso mas então amainara e ele podia entregar-se às suas reflexões sem o alarido dos turistas à sua volta.

Ledo engano ...

Surgindo do nada, três carros acostaram junto ao meio-fio do deserto mercadinho e seus ocupantes atravessaram rumo ao 90° . Tudo mineiro, tudo cheio de fome e de sêde de Cabo Frio. Quieto na sua curva, o cabista entreouviu o surrealista diálogo:

— Eu quero comer camarão, mas só se for VG.

— Eu também quero.

— Eu quero lula, mas quero uma porção bem grande, faz tempo que eu não como lula.

— Eu também quero.

— Pai ! eu quero comer peixe !!!

— Tá bom, pai vai pedir uma anchova bem grande.

— Eu também quero.

— Eu quero pirão de peixe, mas deixa que a pimenta eu que boto.

— Eu também quero.

— Será que tem mexilhão ?!?!

— Eu também quero .

Ao perceber aquela iminente invasão, Oberlande, o solícito e educado garçon do 90° , alastrou de pronto um ror de mesas e cadeiras pra móde acomodar aquele povo todo:

— Pô !!! até que enfim que vai chover na minha horta ....

O povo foi se chegando e se aboletando, dava até pra sentir um certo cheirinho de pão de queijo.

— Mãe! eu tô cum fome...

— Assossega menino...

— Cumpádi, pede uma cachacinha.

— Bão ! bem lembrado , sô ...

— Pede pra botar o CD novo de Tonico e Tinoco.

— Edival, eu tô precisada de me aliviá ...

Quando enfim Oberlande tomou ciência dos pedidos, foi aí então que a maionese desandou:

— Olha, moço, no momento só tem ovo cozido, inda agorinha mesmo ainda tinha cúzinho-de-galinha, mas comeram os cúzinho todo, não sobrou nem um cú pra remédio.

Foi uma debandada geral .

Lá de dentro, olho-de-lince, Julinho questionou gentilmente:

— Que merda é essa que tá havendo aí , Oberlande ?!?!

— Né nada não Julinho, era só um povinho muito do exigente, mas eu já despachei eles ...

— Exigente !? manda lá pro Picolino !!!

Lá da curva-do-vento, o cabista, testemunha visual e auditiva da estória, disse de si para si mesmo :

— Usca !!! vou me embora !!! me deu até uma certa espécie de saudade lá do Arraial do Cabo ...

Cabo Frio, 31 de dezembro de 2006 .

Sergio Santa Rita