Operação caroço

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        Quando João perdeu o caroço, verruga de avantajado tamanho, quase assemelhado à cabeça de um dedo polegar adulto, foi um verdadeiro Deus-nos-acuda!

          — Que-qué-isso minha gente !?!?

          — Você viu o tamanho da porrada ???

          — Pô !!! o poste tá que nem comunista, tá bandeado pras esquerdas ...

          — Essa cachaça do Careca ainda vai matar um, prestatenção no que tô lhe dizendo.

          — Também, o Careca bóta cada balde que dá até pro sujeito mergulhar e lavar as partes e o sovaco.

          —  Não fala isso não, cara ! , o Careca é muito do bão, ele é muito é generoso.

        Bem, pro senhor não vim dizer depois que eu não lhe avisei, vou logo lhe comunicando que eu não tenho a menor responsabilidade com relação à veracidade dos acontecidos e sucedidos aqui narrados, sendo eu apenasmente o elo de ligação entre o que me contaran e a sua pessoa que tão gentilmente lê estas mal-traçadas linhas.

        Vai daí que o João Caroço naquela referida ocasião já até havia se acostumado com aquele adiposo apêndice, o qual também já se havia acostumado com o João, de formas que os dois, João e o caroço, o caroço e o João, viviam em perfeita harmonia, diria até em pacífica convivência.   

        Danilo, que não por acaso mora na esquina defronte ao poste comunista, foi testemunha ocular e auditiva daquele insólito evento. Solícito e bom samaritano como ele, só ele mesmo, melhor do que ele eu até duvido, atravessou a rua em rápido socorro ao amigo João:

          — Que-qué-isso companheiro !?!? Tu tá de mal com o mundo ? Tu quer acabar com a própria vida ???

        Só não deu tempo foi de socorrer o caroço. Decepado pela porrada no poste, o caroço rolou pelo chão em total e completo desamparo. Ainda olhava para o João um breve instante antes de ser devorado por um cachorro vira-latas que por ali passava justo no momento da formidável colisão entre o João e o poste.

        Triste fim de um caroço, sem um ai! sequer de despedida, sem nenhum lamento por parte do João, pobre João que ainda não se dera conta de sua perda naquele infausto acontecimento.

        Da porta do bar do Careca, alguns corajosos foram em socorro do acidentado; outros, encagaçados, esperavam o poste parar de balançar, temerosos da estabilidade abalada. Dinho Preto, sempre destemido, foi até o local da trombada e decretou:

          — Tá vivo ! Mas tá sem o caroço !!!

        Aí procederam como em rinha-de-galo, como se faz com galo mutuca que não vai à hora, e jogaram água fria na cabeça do João. Fez efeito. João abriu os olhos e pediu com convicção:

          — Bóta outra, Careca !!!

        Erguido carinhosamente pelos amigos, foi levado de volta ao Bar do Careca. Arguto observador, Dr. Careca, anestesista formado com louvor e distinção pela Universidade 51 de Pirassununga, com pós graduação em Velho Barreiro e PHD em Três Fazendas, tirantemente os inúmeros cursos de cachaçologia que fez sem nem desencostar o umbigo do balcão, Dr. Careca mirou o dezinfeliz e diagnosticou de prima:

          — Puta-que-os-pariu !!! Essa minha cachaça merece um Premio Nobel de Medicina. Não há nem vestígio do caroço e nem um tico de sangramento.

        Tempos depois deste aqui narrado acontecido, apareceu no Bar do Careca um sujeito dizendo-se enviado pelo Dr. Pitangui. Trouxe gravador, câmera digital, lap-top, bloco de anotações e entrevistou e xeretou meio mundo – Dinho Prêto cobrou a exorbitância de três cachaças para dar seu testemunho - e depois levou João Caroço ( o apelido permanece, o caroço o cachorro comeu ) para ser examinado na ilha do Dr. Ivo, e agora quer levar o Careca, digo Dr. Careca, e o seu milagroso elixir anestésico para um simpósio lá em São Paulo, capital de muita importância no cenário médico nacional.

        Careca até que quer ir, mas a Miriam disse que se for pra ela tomar conta do Bar do Careca juntamente com Boi-lambeu, ela não deixa o Careca ir não, o Dr. Ivo vai ter que perdoar, a Associação Brasileira de Anestesistas vai ter que desculpar, mas Boi-lambeu outra vez a Miriam não agüenta.

        Eu até que concordo com ela e fico até devendo de contar o que que foi que Boi-lambeu aprontou daquela outra vez em que substituiu o Careca , que por motivos de saúde teve de se ausentar do seu agora afamado estabelecimento etílico-medicinal. O senhor me desculpe, já tomei muito do seu tempo, uma outra hora eu lhe conto essa.

 

Cabo Frio, 22 de dezembro de 2009 .

Sergio  Santa  Rita


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