Um natal do peru

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Manhãzinha surgindo no elegante bairro quase todo tomado por prédios e, ainda assim, um galo cocoricou alegremente ao longe. Um canto alegre e de doces recordações, um bom presságio. Ainda era cedo, mas o aroma forte de café fresco puxou-o pelas narinas. Após tantos apelos, como permanecer na cama ?

Calçou as velhas sandálias e buscou instintivamente o maço de cigarros. Estava decidido, no Ano Novo, daí a uma semana, ele deixaria o nefasto vício. Da cozinha vinha o oloroso odor. E aí ele intuiu :

— Vai ser um Natal inesquecível ...

Adentrou a cozinha e deparou-se com as gêmeas Marilívia e Marinívia. Elas estavam a serviço da casa já fazia alguns anos, mas mesmo assim ele ainda não conseguia distingui-las. Decidira então, por conta própria, que uma era real e a outra imaginária. Quando observava alguém conversando com as duas, negaceava a realidade e concluía convicto :

— É alucinação coletiva.

Tomou o café, servido por uma ou por outra, às vezes pelas duas, mas não arredava pé da sua convicção :

— É uma só, a outra não existe.

Após o lauto desjejum, dirigiu-se à sua eclética biblioteca e apanhou, ao acaso, um dos doze livros que estava a ler naquela ocasião. A sua disciplina e a sua memória eram tamanhas que em exata meia-página já estava novamente envolvido pelo enredo e, absorto pela leitura, somente uma cabeça-de-nêgo daquelas do Afonso-Turco-Corretor seria capaz de traze-lo de volta à tona.

Por volta das dez horas da manhã, uma das univitelinas foi atender ao portão :

— Bom dia !!! É aqui que mora o Dr. Marcos ?

— É sim, senhor. Mas ele ainda está dormindo.

—Que pena, eu gostaria de dar duas palavrinhas com ele.

— Só se o senhor voltar mais tarde.

— Não, eu não quero incomodar. Por favor, entregue a ele este presente e diga a ele que o João lhe deseja um Feliz Natal e um Ano Novo maravilhoso.

— Muito obrigada, senhor, o seu recado será transmitido.

Daí a instantes, rebocando atrás de si um robusto e recalcitrante exemplar da raça gallipavo meleagris , Marilívia foi até aonde se encontrava o Doutor, à beira da piscina, e lhe mostrou o presente :

— Doutor, olha o que trouxeram para o senhor.

— Um peru !!! E está vivo !!!

— Pois é Doutor, e agora onde é que eu coloco ele ?

— Mata ele que eu preparo para a Ceia.

— Ah! Doutor ! mato não, mata o senhor, eu tenho pena do bicho , depois eu nem não durmo de tanto remorso.

— Deixa comigo, me traz então uma boa faca.

— Mas não é assim não, Doutor. Dizem que pra carne do bicho amolecer, primeiro tem que dar muita cachaça prá ele antes de matar.

— Dar cachaça pro peru ?!?! Já estou gostando dessa idéia. Deixa comigo, faço questão, prende ele aí no lavabo da piscina que eu vou buscar a faca e a cachaça.

Aquela novidade em plena manhã de Natal deixou-o bastante animado. Assoviando “ Lebréia Hermosa “ , música de sua autoria composta às margens do Rio Paraguai, entrou em casa e da bem abastecida adega sacou uma cachaça especial, de sugestivo nome : “ A Perseguida “ , presente de Serjão, um amigo meio-aloprado , sujeito dado tanto a remansos quanto a redemoinhos. Na cozinha apanhou dois diminutos copos e estava então preparado para a insólita missão.

De volta á beira da piscina, acomodou-se em confortável espreguiçadeira e pondo o irrequieto “gallipavo “ à sua esquerda, deu início às libações receitadas pela esperta Marilívia. No início a ave estranhou, não queria abrir o bico, o primeiro gole foi mesmo administrado na marra. Já no segundo, o “ meleagris “ inclinou a cabecinha para um lado, para o outro, olhou o Doutor bem nos olhos e escancarou a goela.

— Ah! seu sacana ! Tu tá gostando , né safadinho ?

No terceiro gole, o Doutor resolveu experimentar da purinha.

Ele era mais chegado a um uísque mas o perfume daquela caninha lhe trouxe reminiscências dos tempos da UFF. E a danada devia de ser boa mesmo, visto que o peru tava se amarrando na marvada.

A intimidade entre os dois foi aumentando na mesma proporção em que a garrafa foi esvaziando. De longe as gêmeas observavam aquela incomum amizade. Quando chegou na fase de confidencias, o peru vez por outra assentia gravemente e emitia um glu-glu-glu extremamente respeitoso. Mais tarde veio a fase musical e o Doutor ligou a pianola e relembrou canções que ele próprio julgava completamente banidas de sua memória.

Quase no fim da segunda garrafa , já estando ambos em avançado estágio de amizade ampla, geral e irrestrita, eis que surge de volta ao portão da casa o tal do João. Desta vez quem o atendeu foi a Marinívia :

—Boa tarde !

— Boa tarde !

— Eu vim buscar o peru .

—Cuméquié ?!?!

—Eu cometi um engano. O peru é pro Dr. Marcos cardiologista e o seu patrão, me disseram, é ortopedista. Então, eu entreguei o peru pro doutor errado.

—O senhor me aguarde um instante.

E agora, José ? Como dar a notícia e desfazer aquela bela amizade? E quem se habilitava a tal empreitada ?

— Doutor Marcos, sêo João veio buscar o peru.

— Cuméquié ?!?!

— O peru. Ele disse que o peru é do seu colega cardiologista.

—Não devolvo, não adianta, ninguém vai levar o meu amigo.

—Eu vou falar com a patroa.

—Pode falar, você pode falar até com o Papa, eu não devolvo.

Não houve argumento, promessa nem ameaça que convencesse o Doutor a devolver o peru :

— E digo mais, ninguém vai machucar o meu amigo, pode arrumar outro prato para a Ceia, no meu amigo ninguém bole, ninguém bota a mão no meu peru.

De volta ao portão :

— Sêo João, o Doutor saiu, o senhor faz favor, volta mais tarde.

—Tá bem. Mas eu vou voltar.

Mais tarde, bem mais tarde, os dois ferraram no sono, o Doutor e o seu mais recente amigo-de-infância.

E o sêo João veio buscar o “ gallipavo “ .

À noite, já refeito dos eflúvios da marvada, banho tomado, arrumado feito um Lord desses de pinturas renascentistas, o Doutor comandava mais uma vez a Ceia de Natal. Ao olhar para o belo peru assado no centro da mesa, ele filosofou com sabedoria:

— Foi melhor assim, ele ia acabar morrendo de cirrose.

Ao fatiar a piece-de-resistence , a pessoa-da-patroa do Doutor retirou disfarçadamente o apito que indicava quando a ave estava devidamente assada.

E foi, realmente, um Natal inesquecível.

Cabo Frio, 30 de maio de 2007

Sergio Santa Rita