O sumiço do Baralho

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Foi mais ou menos no início de novembro, que o Cebolinha deu início aos preparativos para as festividades de fim-de-ano. Era uma baita mão-de-obra da qual ele não abria mão e ninguém era bêsta de se intrometer nas deliberações cebolísticas. Amontado por riba da quarta ou quinta cerveja e aos brados de "gêlo!!! traz mais gêlo, pôrra !!!" , ele determinava o dia da festa, o que se ia comer, o que se ia beber, quem ia e quem não ia participar, o preço mínimo do presente de amigo oculto, e por aí afora. Ah! e sempre assessorado por seu fiel escudeiro Zéco ...

Então uma certa noite, deu-se que alguém comentou com alguém que Gegê andava meio macambúzio, devido a um certo problema de entortamento do biláu lá dele. Não vinha a ser uma coisa grave, mas causava um certo constrangimento, além de um número especial de contorcionismo no momento exato do rala-e-rola. Vitor, que ouvia atentamente aquela inconfidência, teve de estalo uma brilhante idéia enquanto girava o gelo de seu uísque :

— Eu tirei o Gegê e já sei o que vou dar a ele !

No dia seguinte, Vitor ligou para a filial no Rio e mandou chamar o Negão :

— Negão , tu vai lá na Galeria Alaska numa Loja de Sex-Shop, e tu vai comprar um cacête lá !

— Cuméquié "sêo" Vitor, vou comprar o quê ?!?!

— Um cacête, Negão, pôrra !

No outro dia o Negão vai até a Galeria Alaska comprar a insólita encomenda. Bastante constrangido entrou na Loja e deparou-se com um atendente baixinho, coisa assim de dois dedinhos maior que Reynan, alegre e saltitante, uma mini-gazela de Thompson:

— Bom dia! em que posso servir ao nobre etíope ?

O Negão que estava bastante gripado respondeu de prima:

— O meu "batrão" mandou "gomprar" um "baralho " .

Aí a gazela não entendeu nada, mas mesmo assim foi solícita:

— Mil perdões, mas a loja de artigos de mágica é aí ao lado.

Bem, após alguns momentos de embaraço, o nobre etíope e a saltitante gazela conseguiram se entender:

— Mas, é preciso que o príncipe das savanas africanas me diga o tamanho e a côr do "baralho", isto é, do objeto em questão.

Aí o Negão ligou para o Vitor que liquidou a fatura:

— Pô, Negão !!! compra a seu gôsto !!!

Então a mercadoria foi comprada e enviada em uma embalagem muito discreta, como se contivesse um legítimo escocês, coisa de muito agrado e especial predileção de Vitor.

No dia da festa de amigo oculto, Gegê quase foi às lágrimas quando se deparou com aquele mimo. Vitor até teve que reconhecer:

— É, o Negão caprichou ...

E se come e se bebe... E se bebe e se come... Lá prás tantas não se come, só se bebe. Quase no final da festa, deu-se o infausto: o presente do Gegê sumiu .

— Cadê o meu presente ? Eu quero o meu presente !!!

Organizou-se uma busca no recinto, Cebolinha no comando das ações:

— Ninguém entra, ninguém sai !!!

Zéco jurava de pés-juntos e por tudo quanto era mais sagrado:

— Eu nem cheguei perto, pode me revistar.

Pedrito asseverava:

— Gaúcho não brinca com essas coisas, tchê !

O turco resmungava:

— Nem vem que não tem. Tudo que é sacanagem que acontece aqui pensam logo que fui eu.

Norival também se esquivou :

— Eu nem sei o que qui vocês tão procurando ... Tô fora !

O cabista marcou posição :

— Se suspeitar de mim , dou uma porrada em um !!!

Um dos ortopedistas declarou:

— Eu... eu... eu não... eu não... nem num... nem num... nem num brinco assim.

O outro também negou:

— Olha como o Gegê está triste, eu não faria isso com um amigo.

Marinho olhava prás bandas de Flores da Cunha:

— Sei não, esse presente vai acabar lá pras bandas do Sul...

Sumiu... feito Conceição.... ninguém sabe, ninguém viu.

E o assunto vira e mexe vem à tona. Acusações são feitas, negativas veementes são asseguradas e no entanto, até hoje o "baralho" continua sumido. Quanto à hipótese de comprar-se outro, Vitor disse que o Negão falou que não volta na loja nem morto, por causa de que a gazela deitou uns olhares muito doces prá cima dele e ele quase que sucumbiu:

— Sabe "sêo" Vitor, a carne é fraca ...

Sumiu ... por onde andará ?

Cabo Frio, 29 de Outubro de 2004.

Sergio Santa Rita