... o – bê - ô - bá ...

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Era sábado, e era maio, mês ameno, o carnaval apenas uma lembrança, e os dias terrivelmente quentes do verão ficaram para trás. Pouco a pouco, mui lentamente, a cidade retoma sua vida pacata, sobreviveu mais uma vez à invasão, tão infalível quanto o sobe-e-desce das marés lá na lagôa ...

Passava um pouco do meio-dia, ali na meiota da prorrogação da manhã para a tarde, foi bem aí justamente nessa hora que surgiu o caminhão da casa de materiais de construção. Veículo antigo, a carroceria em petição de miséria, quase uma carcaça, vinha abarrotado de material. Adentrou lentamente a pequena e calma rua e estacionou. Encarapitado sobre a carga, lá estava Jobel, da cor do azeviche, de fôrça ciclópica e argúcia dois dedos acima do zero absoluto.

Do outro lado da rua, em doce far niente na penumbra aprazível do interior do bar do Giovanni, pilotando a 3ª cerveja do dia, Serjão reconheceu o "negão", e meio-de-deboche-meio-de-verdade, mandou :

— Jobel tá bêbado !!!

A injuriosa afirmativa bateu de rijo no ciclope, que ao identificar de onde partira a ofensa, não passou recibo :

— "Bebo" é a puta-que-pariu !!!”

Sabiam ambos, o ofensor e o ofendido, que aquilo era só teatro, apenas uma senha para o tratado de paz que seria selado mais tarde em meio a hilárias encenações de apreço e consideração, era caso apenas de ter-se paciência, de deixar um trabalhar, fazer o seu serviço, enquanto ao outro cabia aguardar a presença amiga com a qual dividiria a ânsia de tomar umas e outras.

Mas, péra aí !?! Que desparrame de material é esse ? Eita! é obra de vulto, pelo tamanho da carga dá prá se perceber. E aí , acordado pelo alarido em torno à chegada do material, eis que surge o dono. Do alto da sacada do seu já portentoso apartamento, Norival comanda a descarga, cuspindo ordens em todas as direções, talqualmente fosse ele um general de cinco estrelas :

— O cimento é prá botar lá nos fundos. A areia vocês botam aí perto da entrada, mas livra o portão da garagem... O material de acabamento vocês sobem a escada, dobra à direita, vira à esquerda, segue em frente e coloca na área-de-serviço, bem junto da máquina de lavar que o Bonitão instalou aqui no ano passado e que até hoje não funcionou .

Jobel resmungou alguma coisa absolutamente ininteligivel, firmou-se bem em suas duas pernas esquerdas - obra-prima de renomado ortopedista da cidade, objeto de convenções e simpósios de Ortopedia país afora - e mandou ver na descarga do material do general.

Foi só falar em Bonitão e não demorou muito e ele apareceu :

— E aí, Serjão, tudo bem ?

— Tudo safo, mano, tudo legal.

— Cadê o Giovanni ?

— Foi lá dentro escamar um peixe que o Zé-que-não-dança deixou ainda agorinha mesmo aí prá ele. Me diz uma coisa, Nori tá fazendo outra reforma ?

— Não sei, nem quero saber, prá ele não trabalho mais.

— Por causa de que, rapaz ?

— Mão-de vaca !!! muquirana !!! judeu !!!

— Ele disse que você desperdiça material .

— Eu ?!? Mentira ! Pergunta pro Giovanni .

Vindo do interior da casa , o italiano mandou a resposta :

— Na obra da minha escada o "Boniton" só gastou 54 sacas de cimento. Ficou muito firme, até me lembra das "bunkers" dos "alemon" . Se tiver guerra de novo , eu vai prá baixo da escada com Anita e Sandrinha ...

Um bocado de tempo depois, Jobel atravessou em zigue-zague a rua, esmurrou o balcão do bar, digo, cantina, engoliu o cuspe seco e questionou :

— Cuméquié, Serjão ?, vai pagar a cachaça, pôrra ?!?!

Ah! ele não devia de ter feito isso. O italiano, que estava por trás do balcão agachado organizando o estoque de bebidas, não gostou nada da atitude do "negão" ; as orelhas em fogo, a reluzente careca vermelha que nem um caqui, destrambelhou prá cima do Jobel :

— O que é que você quer, africano ?!?

E aí o napolitano passou a mão num “facon” de muita estimação lá dele, que ficava sempre a postos atrás da estufa de tira-gosto, relou o facão no mármore do balcão e encarou firme o desavisado Jobel. De todas as peças encenadas naquele amado recanto, aquela era a de maior impacto, quem não a conhecia ficava literalmente apavorado, era tiro-e-queda ...

Jobel ?! Você ainda quer saber de Jobel ? Quá !!! Ele ficou tão desnorteado quando viu o faísqueiro danado que saía do balcão, que dizem que ele tá correndo até hoje . Dia desses me contaram que Chico-pato-rouco e sua comitiva encontraram Jobel em Alto Coité, 150 Km a nordeste de Cuiabá, lá no Mato Grosso. Perguntado se queria voltar, ele disse que não, que o italiano é doido e que o Serjão " só véve de sacanaje ", mas eu acho que isso tudo é invencionice desse povo , quem que vai acreditar em notícia de caçador ?..

Já a tarde descambando mais um bocadinho, bastante depois desses acontecidos, foram chegando aos poucos a turma do dia-a-dia, Mamaco, Carculé, Chinho, Eve, Anderson, Agnaldo, Jurandir, Saúde, Belezinha, Danilson, Zé-que-não-dança, e mais alguns vez-ou-outra. O reservado já tava botando pelo ladrão, era hora de dar-se início à função e então Chinho desembainhou o violão, Mamaco alimpou a garganta e começou a cantoria. Ah! que beleza !

O italiano ficava mais feliz do que pinto no lixo, vez em quando parava o que tava fazendo e vinha espiar. A turma que já conhecia de cor e salteado o enredo daquela peça, ficava só aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Era então que Chinho mudava o repertório para música italiana e ia indo, ia indo, ia indo, até que o Giovanni caía na esparrela :

— Canta aquela, Giovanni...

— Ah! eu "non" sabe cantar "non"...

— Sabe, sim , deixa de bobagem, canta pro Zé-do-balde ver...

Não era preciso insistir muito, bastava pedir apenas uma duas ou três vezes e daí a pouco estava armado o " Festival de Música Popular Napolitana ", que invariavelmente começava assim :

" Ma na tu sole

Che bello di

Oh! sole mio

Sttan fronte a te

Oh! sole

Oh! sole mio

Sttan fronte a te

Sttan fronte a te ..."

Quando chegava no auge da música, a veia do pescoço dele inchava, as bochechas avermelhavam, uns ralos e raros pelos da careca eriçavam, parecia que ia explodir de tanta felicidade. A galera à sua volta vinha abaixo entre aplausos e assobios.

Aí ele cantava mais duas ou três músicas de sua tão distante terra natal e a emoção o impedia de continuar. Aí então ele xingava

" méda !!! " e ia lá dentro de casa por alguns instantes.

Mas o melhor de tudo era a parte final daquela pândega. Terminado o Festival Napolitano, Chinho e Mamaco embicavam em direção às músicas antigas de seresta, outra das paixões do italiano. Lá do fundo do baú vinha cada uma de arrepiar, e Mamaco caprichava, dava cada dó-de-peito que era uma beleza. O italiano vinha, espiava, ameaçava entrar, fazia que vinha mas não vinha, rodeava, negaceava , " é agora ", " tenteia mais um pouco, Mamaco ", " tá quase " , até que Chinho tocava a introdução de sua música predileta, que ele chamava de " A professorinha " . Aí ele entrava de corpo e alma na arapuca e soltava a voz. Ia indo até que chegava no trecho longamente ansiado pela galera :

"... que saudade da professorinha,

que me ensinou o bê – ô – bá ... "

Aí Carculé não dava refresco , punha a boca no antebraço e soltava um sonoro peido. Ah! prá quê ?!? Ele ficava furioso :

— Ah! Vá à "méda" !!! Eu "non" canta mais "non" !!!

Passadas umas duas ou três semanas, acontecia tudo de novo, igualzinho, sem tirar nem pôr.

Agora não acontece mais, não vai acontecer nunca mais.

Agora ele se foi pro andar de cima, deixando-nos, a todos, tão tristemente órfãos de sua alegre e querida presença.

Não acontece mais, não vai acontecer nunca mais.

E só me restou uma certeza muito dolorida de que agora os nossos dias são bem mais vazios...

Saudades, querido amigo, muitas saudades...

Cabo Frio, 28 de setembro de 2001.

Sergio Santa Rita