O curió ...

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Industrial muitíssimo bem-sucedido, Dr. Ariosvaldo tinha apenasmente um ponto vulnerável : sua desvairada, quase alucinada, paixão por curiós. Mas, isso era amor antigo, desde a mais tenra idade foram muitas e muitas as vezes em que capturara e adestrara desde o ovo os mais maviosos curiós, fazendo vir de longe os abastados criadores de pássaros para comprar os seus cantores emplumados. Desde cedo esteve ele naquela lida : captura, cria, procria, vende, ... vende, procria, cria, captura, assim passou-se o tempo. Sujeito obstinado, determinado, vencedor, fez de seu inato talento a mola propulsora do seu sucesso. Montou uma pequena fabriqueta de gaiolas que ao longo dos anos se tornaria uma empresa de porte médio conhecida país afora. Foi eleito várias vezes Presidente da Associação Nacional dos Criadores de Curió, uma vez que sabia do pássaro desde o cú até o rió.

Quando por fim se aposentou, jurou que jamais se envolveria em discussões sobre o já referido passarinho. Mais tarde, já decorridos alguns anos, foi aí então que veio passar uma temporada em Cabo Frio. Incógnito, anônimo, um a mais na multidão, curtia calmamente o seu lazer, quando viu no RJ – TV local a notícia de uma festa na Sede dos Criadores de Pássaros, lá naquela rua que liga o Jardim Caiçaras ao São Cristóvão. Pronto, suas narinas fremiram, as pontas dos dedos formigaram e as pernas bambearam...

No domingo seguinte, acordou cedinho, feliz como um passarinho. Às dez da manhã, o local já fervilhava. Em uma conversa descompromissada, informal, conheceu Sá Silva que afiançou-lhe jamais ter existido no país " um curió tão bão que nem o curió de Vadico". Aquilo funcionou pro Dr. Ariosvaldo assim como para o alcoólatra funciona o primeiro gole.

— Vadico ? E onde posso encontrar esse tal de Vadico ?

— É fácil , O Sr. vai lá no 90° Gráus , lá todo mundo conhece ele, o Sr. vai gostar do Vadico. Ele bóta passarinho prá cantar até em riba de um fusca lá dele, coisa supimpa de se ver, Fernando Pinto diz até que Vadico é um pândego ...

Dia seguinte, Dr. Ariosvaldo pegou a sua Mercedes SL-200 e saiu à procura de Vadico:

— Eu?! Doutor ?! Ah! Sim, bão ! , o Sr. tem até uma certa razão, meu curió era mesmo fora-de-série, até hoje as pessoas ainda me perguntam por ele. Mas, o Sr. olhe, veja como são as coisas nesse mundo sem porteira, não foi que um dia achei o bichinho pousado de banda no fundo da gaiola ?, levei ele correndo ali em Dr. Adolino que me disse " é calundú-babáu-acabou-finou-não-tem-mais-jeito ", chorei à beça, foi muito triste "sêo" Doutor.

— Sinto muito, Vadico...

— Ah! já faz muito tempo, já superei. Mas, em assim sendo o Sr. pessoa que tem muita bem-querência por curió, me lembrei de meu amigo Kakaio, sujeito muito do jeitoso com passarinho, quem sabe ele não pode ajudar o Sr. ?

— Kakaio ? E onde posso encontrar esse tal de Kakaio ?

— Ólha, o Sr. desce aqui por detrás do Hospital, vai em frente, lá adiante o Sr. contorna e indaga onde é o Largo de São Benedito, coisa fácil e pergunta por Kakaio de Mané Paixão, todo mundo conhece ele...

Suave e maciamente a SL-200 acostou o meio-fio do modesto bar. Na expectativa de encontrar um pássaro extraordinário, Dr. Ariosvaldo já estava um tanto ou quanto pálido e um tantinho ofegante.

— Bom dia !

— Bom dia !, como vai o Sr. ?

— Vou bem , obrigado, vim à sua procura, seu amigo Vadico é que me indicou a sua pessoa .

— Ah! sim, Vadico , um grande amigo meu, mas em que é que eu posso ajudar o Sr. ?

— Curió, meu amigo, o assunto é curió.

— Curió ?!? Ah! como era bom o meu curió ...

— Era bom ? Que que aconteceu com o seu curió ?

— Vendi, meu amigo, a essas alturas ele tá cantando lá nos Pirineus, aliás ele nem devéra de ter nascido em país de terceiro mundo, de tão bão que o bichinho era.

—Ah! meu bom Deus ! acho que cheguei tarde outra vez ...

Amenidades então foram conversadas, e algum tempo depois Kakaio tentou acalmar o dolorido coração do Dr. Ariosvaldo, talvez ainda restasse uma esperança, quem sabe?

— Não me diga, meu rapaz !, que ainda é possível de haver um curió fora-de-série por estas bandas .

— Com certeza, doutor, pode botar fé.

— Onde, meu amigo, me diga logo onde !

— Na casa do meu amigo Gaguinho, onde mais havéra de ser ?

— Gaguinho? E onde é que eu posso encontrar esse tal de Gaguinho ?

— Olha, o Sr. desce por aqui até a Av. Assunção, passa pela Praça Porto Rocha, desce pro canal , passa por debaixo da Ponte, e segue beirando a Lagoa , até o Clube do Canal, é fácil, fácil, num tem como errar...

— Muito obrigado, Kakaio, já tô indo .

— Espéra, doutor, fica frio, primeiro eu preciso alertar o Sr. sobre o Gaguinho. Ele não é fácil, o Sr. vai se aborrecer...

— Como assim, Kakaio ?!

— Ah! o senhor vai chegar lá, ele vai dizer com a cara mais lavada que nunca criou passarinho, que ele nunca teve um reles periquito, nem uma pobre duma maitaca, que ele tem horror a passarinho, ih! o senhor vai se aborrecer...

— Mas por que que ele faz isso ?!?! ele é doido ?

— Ah! né não, doutor! , é porque ele gosta muito dos passarinhos lá dele, e aí ele valoriza muito, ele não dá mole não , o sujeito que procura por Gaguinho, tem que ir municiado de muita paciência e muita grana, senão é tempo perdido, vai ficar no ora-veja ...

— Tempo e dinheiro ?!? Então é esse o caso. Ah!, deixa comigo Kakaio ...

Por detrás do " dormitório das garças " , o sol parecia ter preguiça de ir-se. Com seu estofamento ainda recendendo a couro macio, a SL-200 acostou frente à moderna sede do seletíssimo clube náutico, de lendárias esbórnias carnavalescas... Quantos bailes... quanta lança... quase um rio e meio de Whisky...

Na portaria o tratamento V.I.P. :

— Boa tarde, em que podemos servi-lo ?

— Eu preciso falar com o Gaguinho .

— Um momento, por favor.

Em pouco tempo Gaguinho apresentou-se à Portaria:

— Bo... bo... boa tarde . Em que... em que... que... em que que eu po-po-posso ajudar o senhor ?

— Vim aqui prá comprar o seu curió !

— O quêêê ?!?!?! cu...cu...curió ?!?!?! Mas me... me... meu amigo isto aqui é um clu... um clu... um clube náutico, que...que...estória é essa de cu...cu...cu... curió ???

— Tudo bem, tô entendendo, seu amigo já tinha me avisado desse seu teatrinho, tudo bem, eu até entendo...

— A .... a ... amigo meu ? de quem... de quem... o se... o se... o senhor tá falando ?

— Kakaio.

— Ah!... fi... Ah!... fi... Ah! fi-fi- fi-filha da ... pu... da ... pu ... da.. puta !!!!

— Viu ?!, igualzinho ele me avisou que ia acontecer ....

— Quan... quan... quantos anos o se... o se... o senhor tem?

— Fiz meia-dois semana passada .

— Ah! , e ... e... cum essa idade , o se... o se... o senhor, ainda acre... ainda acre... ainda acredita em Kakaio ?!?!?!

— Mas ele me garantiu que o seu curió é bão !!!!

— Ah!... fi.... Ah!... fi... Ah! fi-fi-lha da... da... puta !!!!

— Ólha, não faz teatro não ! Kakaio já me alertou, assim a gente não vai se entender, bóte preço no bichinho e acabe logo cum essa conversa fiada !

— Mas, meu amigo, eu nem... eu nem... eu nem gosto de pa–pa... de pa-pa... de passarinho !

— Conversa! você quer é valorizar o seu produto!

— Ó... Ó... Ó... qué... qué... qué saber duma coisa ? Nem que eu ti... eu ti... eu ti ...eu tivesse o me... o me... o melhor curió do... do... do mundo, eu não ... eu não ... eu não vendia pro senhor !!!!!!!

— Ah!!! é ?!?! então já virou caso pessoal !!! voce tem um curió dos bão e num qué me vender,"sêo" gago disgramado !!!

— Gágo !?!?... gágo !?!?... gá... gágo eu ?!?! gágo é a pu...gágo é a pu ... é a pu ...

Aí , a galera que estava assistindo ao embate, achou por bem interferir prá mode ninguém se machucar.

Mesmo assim , os dois contendores proferiam ameaças e desafios terríveis:

— Deixe de ser bobo !

— Ra... ra... rapaz, eu nâo tenho pa... pa...passarinho !!!

— Tem !!! Kakaio me garantiu !!!!

— É men... é men... é mentira dele !!!

— Bóte preço !!!!

— Ah! você num... voce num... voce num acredita não ?

— É teatro seu .

— Quando eu pegar eu vou ma... eu vou ma... eu vou matar Kakaio, ah!, eu vou !!!

Ah!, a coisa ia ser demorada..

A galera em volta botava fogo:

— Vende logo esse curió, Gaguinho !!!

— Ah! fi-fi... Ah! fi-fi...

E aí , quase às duas da manhã, Neck, Presidente Vitalício do Conselho Deliberativo do Clube do Canal, foi informado da altercação à porta de tão tradicional e valorosa agremiação náutica-esbórnica-etílica-desportiva .

Em pouco mais de meia-hora, o nobre Presidente compareceu à Portaria e já portador da solução de tão estrambótica polêmica, determinou :

— Sr. Damião, pode se retirar, muito obrigado!, desde já lhe agradeço pela atenção dispensada ao ilustre visitante. Sr. Ariosvaldo, trago-lhe notícias alvissareiras! Fui informado de que o proprietário do melhor curió da região, um pássaro absolutamente fantástico, é o Sr. Bebé, por mui curiosa coincidência, sogro de nosso mui estimado sócio Serjão.

— Bebé ? E onde posso encontrar esse tal de Bebé ?

Cabo Frio, 12 de dezembro de 2001.

Sergio Santa Rita