A Carona

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           Naquele sábado, por volta de dez e meia da manhã, Renato Preto seguia, lenta e dificultosamente pela calçada, amparado por suas inseparáveis muletas. Triste e ingrata ironia do destino aquelas pernas necessitarem de auxílio. Houve um tempo em que foram ágeis instrumentos de trabalho a ensinar a tanta gente o belo jogo da capoeira e os segredos e as artimanhas do jiu-jitsu. Mestre Renato Preto ... homem de muitos e muitos amigos, na boca sempre um sorriso afável, a vida lhe sorria e ele  sorria de volta...

          Era um sábado tropical, ainda bem novinho, a estender-se quente e preguiçosamente diante de todos, bastava pular no estribo do imaginário bonde da alegria e deixar-se ir, por aí afora. E  lá vai Renato... e aí surgiu o Alfa-Romeo. Ao volante, Dito, e ao seu lado, Dr. Bandeira, mui respeitado médico ginecologista e legista, conhecedor dos mistérios da vida e da morte, inveterado boêmio, amigos às dúzias e dúzias, bom de papo, copo imbatível. E aí então Bandeira avistou Renato, amigo de longa data, de antigas e já desbotadas esbórnias.

             — Pára, Dito ! Vamos oferecer uma carona pro Renato.

          Mansa e docilmente o reluzente possante prata acostou junto ao meio-fio :

             — E aí, Renato !?! quer uma carona ?

          A cena sucedia-se ali na Praça Porto Rocha, bem em frente aonde já foi a Agencia do Bamerindus. Renato olhou em direção à Igreja Matriz, elevou os olhos aos céus e piedosamente agradeceu :

             — Obrigado.

          Dito saltou agilmente e acomodou carinhosamente Renato e suas muletas no banco traseiro. O carro desceu em direção ao canal e a luminosa manhã faiscou em suas retinas. Bandeira deixou-se tragar por aquela indizível onda de prazer e bem-estar e exclamou:

             — Carpe diem !!! Renato, você não está mesmo com pressa, vamos dar uma passadinha rápida lá pelo Malibu . Tóca, Dito !, vamos que eu já estou lascado de sêde .

          A praia fervilhava de gente, sons e cores, daí a poucas semanas seria carnaval. De repente, Dito sentiu o volante pesado e, hábil motorista, intuiu :

             — Ih !!! Já vi que tem pneu furado...

           Não deu outra, o diagnóstico havia sido preciso. Encostou junto a um dos inúmeros bares da orla de modo a solucionar o problema. Abriu o porta-malas, sacou o sobressalente e deu início à aborrecida e estafante tarefa. Bandeira perguntou a Renato se queria uma cerveja, Renato pediu água, água veio e Bandeira foi-se.

          Mais tarde, Dito saiu na captura de Bandeira, a essas alturas já a bordo da 3ª  caipirinha e da 4ª  cerveja, ou vice-versa, essa numeração não é exata  e nem  precisa, mas não altera em nada a conjuminância do efeito.

          Dito, que também é filho de Deus, também deu lá as suas beiçadas, ora se deu. Coisa de duas horas e meia depois, estavam de volta ao flamejante veículo, já recomposto em seus rodantes, graças à perícia ímpar de Dito.

             — Tóca, Dito !!! Vamos em frente !  - comandou Bandeira.

          No banco traseiro, Renato, embalado pela brisa marinha, cochilava refestelado. Deu-se a volta na praia e Dito enveredou pela Av. do Valente, e aí já era então Dito o comandante daquela navegação terrestre. Ao passar defronte à sede do "Vermelho e Branco " , o carro foi instado a parar pelo Presidente da briosa agremiação carnavalesca :

             — Dr. Bandeira ! Há quanto tempo ?!?  Venha, o seu lugar na comissão julgadora do samba-enredo deste ano, ah! , o seu lugar, tá lá guardadinho-da-silva , à sua espera.

          Bandeira adentrou o recinto e foi vivamente ovacionado pelos presentes. A velha-guarda então, nem se fala, era uma alegria só com a presença de tão ilustre quanto querido membro da Diretoria.  Dito ? Ah!, Dito ancorou mãos e bafo junto a uma sestrosa mulata, apetrechada de cada pernão, ó !, rabicho antigo, de vez em quando ele jogava sua pôita naquele remanso. Lá no carro, Renato ressonava, dormia a sono solto, embalado pelos agogôs, tamborins e repiniques. Ê ! vida bôa...

          Depois de muita discussão - quase acaba em baixaria - o samba-enredo foi enfim escolhido, o voto-de-Minerva coube ao Dr. Bandeira. Serenados os ânimos, definidas as atribuições de cada ala para o tríduo momesco que se avizinhava, voltaram, o piloto e o comandante, para a garbosa viatura. Passava um pouco das cinco e Renato estava um tanto impaciente:

             — Bandeira, dá prá me deixar em casa ?...

             — Ô ! meu irmão ! é jogo rápido, não esquenta não, daqui a um pouquinho você tá em casa ...

          Dito acionou a ignição, desacostou suavemente, e na esquina seguinte dobrou à esquerda em direção ao “Ensaio Geral do Bloco da Parókia”.

             — Ô Renato ! Segura aí mais um instantinho, que eu tenho que dar uma palavrinha com Binho e já volto.

          Binho, Presidente Vitalício do Bloco da Parókia, ao ver Bandeira aproximar-se, exclamou:

             — Cuméquié, Bandeira ?!?!  Já mandei prá mais de cinqüenta recados prá voce vir aqui prá gente acertar os detalhes pro desfile deste ano, ô rapaz !

             — Tô aqui, meu chefe ! Quê qui tu tá precisando, chefia ?

             — A bateria tá que é uma miséria só, tem pra mais de vinte peças rasgadas, o cara do carro-alegórico tá fazendo jogo duro, isso sem falar na verba que a Prefeitura promete, promete, promete, parece cabeça de bacalhau, ninguém vê !!!

             — Calma, Binho... Bóta uma com carqueja, vâmo sentar e conversar, a tarde é uma criança...

          Dito ? Ah! o Dito nessas alturas do campeonato já tava no comando da 12ª cerveja e azarando mais uma mulatinha, no que, diga-se de passagem, estava sendo correspondido, êita sujeitinho competente esse Dito.      

          Ali por volta das oito e meia da noite, Bandeira e Binho já tinham  acertado tudinho, o desfile daquele ano tava no papo, a Parókia  mais uma vez seria imbatível. Dito deu mais um amasso na cabrocha sarará e, a uma ordem de Bandeira , reassumiu mais uma vez o comando do imponente veículo. Do banco traseiro, olhos súplices, voz trêmula, Renato implorou :

             — Bandeira ...

          Desceram a Av. Nilo Peçanha e lá junto ao Banco Real, no encontro com a Av. Assunção, depararam-se com o acidente. Dois carros colidiram e poderia haver feridos. Bandeira saltou e ofereceu seus préstimos ao policial que orientava o trânsito :

             — Não carece, não, Doutor ! Os feridos, coisa leve, já foram pro P.U. , tá tudo sob controle.

          Retornando ao seu carro, Bandeira encontrou Dito desolado:

             — Acho que a gasolina acabou ...

          Bem, isso acontece, me diz quem nunca passou por isso? , e dali no Posto Esso, ida e volta, foi coisa de mais ou menos uma hora prá Dito resolver o problema.

          E aí, pontualmente às dez da noite daquele tão formoso sábado, Bandeira finalmente chegou ao portão da casa de Renato , lá no Portinho. Ainda gentil, Bandeira pediu a Dito:

             — Dito, meu querido sobrinho , leva Renato até lá dentro.

          Renato, já desembarcado, deu um longo suspiro, jogou as duas muletas para o alto, deu uma sonora "banana" pros dois , e disse :

             — Precisa, não !!!

          E então, garboso e altivo como nos velhos tempos da capoeira, embicou direto pelo corredor de acesso à sua casa.

          Do lado de fora, Dito sentenciou:    

             — Sujeitinho mais sem paciência, eu hein !?!

Cabo Frio, 16 de setembro de 2001.

Sergio  Santa  Rita


 


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