O quarto tenor ...

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          Creio que são poucos os que se lembram da Divertilândia. Situada na esquina oposta à Constrec , lá prás bandas da Delegacia, a Divertilândia foi, por um bom tempo, a casa de Shows de maior prestígio de Cabo Frio. Boêmios, políticos e empresários eram figurinhas fáceis na acolhedora casa. Sua decoração não era um primor de bom-gosto, mas o atendimento era carinhoso e personalizado. Parecia um coração de mãe ... E era mesmo ... Ah! como era! ...

          Foi então que em uma certa ocasião, aconteceu o 1º Festival de Calouros da Divertilândia, estando no comando de tão auspiciosa  efeméride , D. Marilena Alves e Cândido, doublé de projetista e promotor de eventos. Na realidade, acabou sendo o 1º e último, em função dos insólitos acontecimentos tidos e havidos naquela sessão tão única quanto extraordinária.

          Os apresentadores do portentoso concurso seriam os famosíssimos, na ocasião, Mauro Montalvão e Neide Aparecida. A divulgação utilizou os prestimosos serviços do carro-de-som de J. Ribeiro, coisa muito da moderna naquela época. Na periferia, a notícia se espalhou “bocalmente”, causando verdadeiro rebuliço. A coisa tava tomando vulto...

       Apareceram tantos candidatos que se tornou necessário fazer uma pré-seleção,  eliminando os mais explicitamente desafinados. Bem, é claro que os candidatos já possuidores de relativa fama não foram submetidos a tais vexames. Determinou-se também que o candidato poderia, a seu critério, apresentar-se com o seu próprio conjunto musical de forma a obter uma melhor performance. Aos que não dispunham desta regalia, o Festival colocava à disposição o famoso conjunto musical  "As Aftas Ardem " , que acompanhava Mauro e Neide , Brasil afora nessa garimpagem de talentos e de um "cascalho"  a mais.

       Na semana que precedeu o ansiado evento, cada candidato se preparou o mais que pôde para a grande noite. Inclusive Carlão.

       Sabe, tô começando a achar que é de mais valia abrir aqui um parêntesis  prá tentar explicar  Carlão : Sabe os Três Tenores ? Se não fosse por aquela noite , seriam  quatro ! 

       Quando Pavarotti começou , perto de Carlão ele era um mero cantador de banheiro. Carreras , o espanhol ?  No mano a mano , a  “Granada” de Carlão era muito mais explosiva , podes crer.

       O Plácido ?  Ah! O Carlão era muito mais impulsivo, inclusive aos domingos. Volto a lhe dizer, se não fosse aquela fatídica noite eles seriam quatro. E ouso afirmar, dos quatro, Carlão seria o melhor. Naquela ocasião Carlão  desafiava qualquer um desses outros e ainda dava três dó-de-peito de vantagem. Expliquei  Carlão ?  Você entendeu?  Então prestatenção !

       Havia um conjunto com o qual Carlão estava acostumado, já nem não era mais costume, já era vício.  Martinelli, Moisés e Alvinho , nas cordas, e completando o "four-de-ases", Agildo no pandeiro. Tocavam de ouvido, modo de dizer, tal era a integração do Quarteto. Carlão era o quinto elemento, substancial, fundamental, decisivo. Juntos eram de difícil adjetivação, como definir ? , algo assim como uma força da natureza, uma pororoca musical, uma tsunami em dó sustenido !!!  Porém, na sexta-feira , véspera do Festival, o fabuloso quarteto participou de uma seresta  promovida pela Prefeitura na inauguração do Centro Cultural. E foi aí que a coisa começou a desandar. Bebe que bebe, toca que toca, bebe mais que toca, no final da festa teve um pequeno jantar. Pernil assado, farofa, arroz, maionese e come-bebe-come-bebe-come-bebe, depois só bebe-bebe-bebe-bebe-bebe ,varou-se a noite... No dia seguinte por volta das onze da manhã, a maionese deu o ar de sua desgraça. O "four-de-ases" transformou-se em "four-de-piriri"...

       Mas, e Carlão ? Ah!, Carlão não havia participado da infausta seresta. Sábado pela manhã ele acordou cedinho, fez seu gargarejo com casca de romã e Anapyol, fez exercícios vocais, só de “dó-ré-mi” foram trezentas e trinta e cinco vezes, recusou-se até a atender o telefone , o Festival era favas contadas, tudo o mais podia esperar.

       — Boa noite, senhoras e senhores!  Eu e a Neide Aparecida sentimo-nos honrados com a vossa presença !  Nesta  noite de grande brilhantismo, esperamos que este Show vá alegrar a todos os presentes e que possamos revelar para todo o nosso querido Brasil, uma nova estrela da canção popular.

            — Boa noite, povo de Cabo Frio ! Esta terra maravilhosa que sempre acolhe com tanta generosidade os visitantes, busca nesta noite de brilho ímpar revelar ao Brasil inteiro um novo astro do cancioneiro nacional !!!  Boa noite, querido povo de Cabo Frio !!!

       Foi assim, sem tirar nem por, foi assim que tudo começou.

       Suave... maneiro... de forma gentil e educada...

       Mas, lá prás tantas...

             — E agora , convidamos ao palco o candidato da Massambaba !

       Foi o sujeito começar a cantar e tomou uma vaia. A competição estava acirrada. O povo da cidade vaiava o da roça , e vice-versa,  e a balbúrdia estava instalada. Mas péraí ! Por onde anda Carlão ? Quéde Carlão, gente ?!?

       Carlão estava supimpa. Terno de linho branco, camisa aberta no peito, uma rosa vermelha na lapela, anelão no dedo, glostora na cabeleira, por onde passava deixava um rastro de “Lancaster” . No entanto, já dava sinais de nervosismo :

            — Cadê a turma, pô???

       Ele não sabia da missa nem a metade, e aí...hum!!!

            — E agora é com imensa satisfação que chamamos ao palco o candidato da Passagem !!!

        E Carlão adentrou ao gramado, digo, palco. Beijou galantemente a mão de Neide Aparecida, ofereceu-lhe a rosa vermelha, cumprimentou Mauro Montalvão e pediu ao “Aftas”:

            — Dó-maior.

       E aí, Carlão soltou o vozeirão:

            — "Se eu tivesse o coração , que dei...

       E o conjunto:

            — Plác –tác –réc- téc repléc– plác-tác- réc- téc repléc

       Era um arranjo moderno, tipo  pop-rumba-tango, uma nova roupagem para o clássico do cancioneiro brega, mas Carlão num tava gostando não. Olhou de banda, e foi em frente:

            — "Tivesse ainda a ilusão, bem sei...

            — Repléc-téc-rác-tác repléc-téc-rác-tác...

            — "Coragem prá recomeçar no amor...

       E foi bem aqui que Carlão, nervoso, estranhando aquele arranjo modernoso, pasmem, me acreditem, Carlão desafinou !!!  Cafú, badernista juramentado, lá do fundo da platéia gritou sem dó nem piedade:

            — Quimérdééssa, Carlão ?!?!?

       Ah! Carlão não passou recibo do vexame e, ainda ao microfone , mandou de volta :

             — Cafú, sêo filhadaputa !!! Tu vai prá puta-que-ti-pariu, quando eu ti pegar eu vou ti enfiar a porrada !!!

       E aí, cortaram o som e a porradaria foi geral. Dizem que teve até um baixinho fanho, lá da Sepol , que aproveitando-se da confusão geral aproximou-se do palco  para ver mais de perto as famosas e fabulosas pernas da Neide Aparecida . E aí o baixinho extasiado deu o seu sincero parecer :

—   U-á-i-a-íu !!!A-alho!!! i-ôcha !!! 

        Bem, inútil dizer que o Festival acabou ali, naquele exato momento.

        Mais tarde, soube-se que Mauro Montalvão disse que nunca mais voltava nesta terra de índios.

         Dizem que a Neide Aparecida ouviu o elogio do baixinho e não gostou, coisa que eu duvido muito.

        Carlão , traumatizado, jurou que não cantava nunca mais.  

        Cafú, andou sumido por uns tempos numa traineira lá prás bandas do Sul, esperando a raiva de Carlão esfriar.

        E foi assim que aconteceu... dizem...

        Mais detalhes, só se você perguntar pro Cafú.

        Se bem que eu acho que ele vai dizer que não se lembra, já faz tanto tempo ...

Cabo Frio, 05 de dezembro de 1997.

Sergio Santa Rita


 


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