Só se guardar isso ...

Voltar

Ela era um verdadeiro despropósito de mulher. Dona de um "pandeiro" profissional digno dos mais sinceros elogios, musa dos devaneios solitários da rapaziada ainda imberbe, quando ela passava não havia "cabo Jorge" que não batesse continência. Sabedora de sua condição de fêmea cobiçada, impunha então mais ritmo ao requebro dos formidáveis quadris e constatava orgulhosa a gula dos olhares masculinos a desnudá-la, alguns com vagar, outros num repelão.

Ele a via passar e sonhava com o dia em que ela seria sua. E, ciumento, quase sem querer, deixava escapar:

— Aonde irá Sirlene ?

E seu primo, que também a devorava com os olhos, lhe respondia num monossílabo enigmático, porém repleto de significados:

— Hummm !!!

E assim a vida transcorria tranquila e suave em meio àquela doce inquietude. No calendário da vida, a mão do destino colhe a cada dia o fruto maduro do tempo, e deixa, às vezes, no fundo da retina apenas o vulto de uma cobiçada "rabiola"... farta... opulenta... supimpa...

Mais adiante no tempo, já ostentando um cerrado bigode, negro que nem asa de graúna, já desfeito o mistério das idas e vindas de Sirlene, vamos encontrá-lo às voltas com mais um sonho: uma deusa, uma miragem, uma verdadeira loucura, nada iria impedi-lo de conquistar aquele monumento erguido ao deus Eros. Que corpo!!! rabo de tanajura, cada coxão enorme, e uns peitinhos de ninfa, "cabo Jorge" quando a via, batia mais continência que soldado de sentinela...

Traçou um plano de ataque para aquele sábado, a batalha seria travada no baile do "Santa Helena". Exímio dançarino, pé-de-valsa afamado, era um artista em qualquer ritmo, Vilma haveria de render-se aos seus passos , pensava o nosso Fred Astaire , embalado em doce e inefável fantasia.

Aprontou-se no capricho: calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado lá no campo inda era flor , glostora na negra cabeleira, duas ou três gotas de Lancaster no bigodinho aparadinho, ele tava na ponta dos cascos, Orlando Bonitão se visse até ficava despeitado, com inveja. Passou no bar do Miruca, calibrou um dreher que desceu macio, chupou uma bala de hortelã prá disfarçar o bafo e partiu pro combate.

Baile no "Santelê" era madeira-de-dar-em-doido, enchia mais que decisão de campeonato. Na penumbra do salão, no escurinho da luz-negra, ele divisou o vulto de Vilma. O desobediente coração bateu mais alto que ripinique em domingo de carnaval. Aproximou-se de mansinho, olhou em torno e viu que tinha muito gavião na área, convinha conciliar astúcia e audácia. Na mesa ao lado da de Vilma estavam Agildo, diretor de salão, e mais Dinho Prêto e duas jovens que conhecia de relance. Chegou junto e cochichou no escutador de Agildo:

— Me apresenta essa coisa linda da mesa aí do lado !!!

Agildo, que nunca foi de deixar amigo na mão, olhou prá um, olhou prá outro e lembrou um fiapo de canção:

"Esses moços, pobres moços..

Ah! se soubessem o que eu sei..."

Mas não se fez de rogado e o apresentou à diva, digo, Vilma:

— Este é Luiz Cláudio, um grande amigo meu...

— Muito prazer.

O prazer é meu, vamos dançar?

Foi só aí que pode ver o quanto ela estava linda, numa mini-saia rodada de fazer frade de pedra ter crise de priapismo.

E então ele a estreitou nos braços e ambos silentes foram bailando alegremente, livres, leves e soltos, e o tempo esparramou décadas e décadas a seus pés como se fôra um mágico tapete urdido com a agulha da eternidade e o fio do imponderável ...

Bem mais tarde, com muito pesar, ela lhe disse:

— Tenho que ir embora.

— Eu te levo. – ele ofereceu-se.

Agildo, que tinha visto o início do incêndio, cantarolou outro pedaço da dolorida canção:

"Não amavam, não passavam,

aquilo que eu já passei... "

Fora do clube, a madrugada fria. O céu de julho, perdulário, esbanjava estrelas. Passou-lhe o paletó de linho branco por sobre os ombros e seguiram pela calma noite, entontecidos de amor. Dobraram na Meira Júnior e seguiram agarradinhos... Havia naquela rua um enorme muro que cercava extenso terreno baldio. No velho muro a erosão cavara uma fenda que mais tarde a garotada transformara em passagem de múltiplas serventias.

Ao chegarem no buraco do muro, ele a convidou para entrarem no terreno baldio, de forma a namorarem mais à vontade. Ela relutou, estava tarde, ele a beijou, ela cedeu. Já do lado de dentro, as carícias foram se tornando mais ousadas. Em pouco tempo ele arriou as calças novas de riscado até às canelas. Quando ela sentiu a ponta da "lança" bater-lhe às portas da "gruta", deu-se conta do iminente perigo e, quase desfalecendo, reunindo força de vontade e renúncia, gritou:

— Pode parar !!!

Ele ficou aturdido, paralisado, sem ação.

Ela recompôs-se, ultrapassou o buraco no muro, ganhou a calçada e caminhou em direção à esquina. Com as calças ainda arriadas, ele aproximou-se do buraco e pediu-lhe numa tristeza infinita:

— Vem cá, Vilma ! Faz assim não ...

Ela parou, virou-se para ele e cruelmente decretou o fim dos seus sonhos :

— Só se guardar "isso" !!!

Bem, aí nada se pode fazer. Obedientemente ele guardou "aquilo", perdera uma batalha, um dia ganharia a guerra. E, sem querer, sem como nem porque, uma pergunta antiga veio-lhe à mente:

— Por onde andará Sirlene ?

E os ruídos da noite, do vento e do mar, como um coral afinado, sopraram-lhe uma enigmática resposta :

— Hummm !!!

Cabo Frio, 03 de junho de 1993.

Sergio Santa Rita