Pirraça e Enguiço ...

Voltar

 

       Começou a suceder-se o presente causo, por ocasião do encontro de Bira com Pirraça numa mesa de canto no Bar da Parókia:

          — Não aguento mais com Enguiço  -  desabafou  Pirraça. O danado  do  bicho tá cheio de vontades e agora  tá ficando esclerosado, deu de recusar a comida, acho até que ele tá apaixonado pela porca  do  vizinho, onde é que já se viu isso ?!?

       Bira, sujeito muito do artimanhoso, ouviu pacientemente as queixas do amigo e não titubeou:

          — Não se preocupe mais Pirraça, deixa comigo, conheço a pessoa certa prá resolver o seu problema. Binho ! Bóta mais um carquejo !

      A conversa com Chico não necessitou  muita explicação, nem demandou algum tipo de convencimento:

          — É prá matar o bicho ? É comigo mesmo, tá falando com um profissional, considere o bicho morto !

          — Mas, olha lá, Chico!, o "dezoito"  é de estimação, carece de não judiar, Pirraça tem o maior carinho por ele, até faz questão que seja um especialista conforme é o seu caso.

       Porém , estimação é sentimento muito do sério, e entre convencer Pirraça e passar-se aos finalmente, foi prá mais de mês, houve marchas e contra-marchas:

          —  Cuma que vai ser???

          —  Deixa comigo !

          — Não quero que me judia do bicho, “sêo” Chico . Criei  o  disgramado  desde  bacorizinho.

          — Mato bicho desde os dente-de-leite, num aguentava  nem  direito com  o peso da faca.

          —  O senhor vai  judiar do dezinfeliz...

          —  Vou nada, homem, deixe  de  bestagem.

       Até que...

        E aí  marcou-se  o  dia  que  seria o  derradeiro de    Enguiço. Cabe aqui um breve parêntesis para registrar a procedência do dito cujo: irmão de Barrabás, um certo porco de muita querência de Zé-que-não-dança, que até hoje lamenta uma azarada festa de N. S. D’Assunção, mas isso é outra estória, me desculpem a lembrança fora de hora , Enguiço sempre se destacou  tanto pelo porte altivo como pelo máu-gênio. Avesso a estranhos, era cheio de vontades, no que cabia muita culpa ao próprio Pirraça , mas  ficaríamos aqui por muito tempo a relatar as más-criações de Enguiço e  as benevolências e as pacholices de Pirraça, e não  é  isso  que interessa...

       Êita! que chegou o dia !!! Chico acordou cedinho, arrumou as gaiolas dos seus galos-de-briga ,  lembrou que ficara de ajudar seu compadre Cleonício numa rinha lá na Praia do Siqueira , afiou  as suas facas  e  estava pronto para o embate. Foram prá dar sustância ao desenvolvimento do evento, entre participantes e palpiteiros, Chico , Bira, Binho, Nini, Gugu, Juca, Agildo, Serjão, e mais uma meia-dúzia de sacanas que apostavam em Enguiço e ainda davam dois Chico  de  lambugem.                      

       De tão aperreado pelo iminente desenlace, Pirraça recebeu a turma, serviu uma rodada da branquinha, coisa muito da fina vinda lá de Cardoso Moreira,    alegou   que  ia ali  já voltava, e  escafedeu-se, nem sombra mais de Pirraça não se achou  nem prá remédio.

       Chico adentrou o perfumado recinto  do  chiqueiro de Enguiço  e traçou  uma  estratégia:

          — Amonto nele... dou-lhe uma "gravata" com a canhota... prendo as patas com os meus calcanhares...   e cravo a faca, lá in nele ... pronto!, tá feito o serviço.

        Enguiço , que não foi comunicado da referida estratégia, estranhou muito quando Chico lhe amontou. Corcoveou e varejou Chico espetacularmente  na cerca do vizinho. A galera em  volta  vibrou:

          — Seguuuura  peão !!!

          — Que porrada, meu !!!

          —  Esse  porco  tem  parte  com  o  cão !!!

          — Acorda  Chico , gente !!!

       Bem, a tentativa seguinte já foi um tanto mais difícil, Enguiço tava meio desconfiado, careceu tentear mais um pouquinho: finge-que-vai-mas-não-vai,  negaceia daqui, negaceia de lá, Chico fez de conta que ia embora -  perdeu uma boa oportunidade - e, de repente, vapt!, Chico amontou de novo no 18.

         E o placar na porta do chiqueiro anotou:

                                Enguiço    2    X     0     Chico

          —  Eita!!! Cacêta!!! Que porrada!!!

          —  Acóde, gente, que o bicho tá furioso!!!

          —  Cuidado, esse bicho é tinhoso!

          —  O que é que Chico tá procurando?

          —  Acho que ele perdeu a dentadura .

         —  Fufa-fi-fafiu !!! Feu fou fufer fefe fifu-fa-fufa !!!

       Achada a dentadura  e  serenados os ânimos, partiu-se para a terceira tentativa. Chico já tava irado e pediu  ajuda à galera:

            — Segura ele, gente!!! Segura esse filhadaputa!!! Se  ele  me  derrubar de novo, vou dar dois tiros de garrucha no meio dos cornos dele!!!

       A turma deu uma força e, a muito custo, conseguiram imobilizar Enguiço. Chico amontou mais uma vez e perfurou Enguiço dezoito vezes. O bichão  arriou, tava feito  o  serviço. Nini, do alto de  sua  experiencia  de  Gerente  da  Caixa, atestou:

            — Tá morto! Traz o álcool prá mode despelar o presunto.

       Trouxeram uma garrafa de PRINGS 96º ,que foi fartamente  espalhada  sobre  o  barrasco. Riscou-se o fósforo e aí deu-se:  ao sentir aquele calor inusitado, Enguiço, que estava apenas desmaiado em função do estresse da luta e das futucadas do Chico que apenas lhe perfuraram a capa-de-gordura, desembestou portão afora e ganhou a rua:

          — Segura, gente! segura que o churrasco tá fugindo !!! 

          — Tá bem passado ou mal passado?!?

          — Pôrra! que rodízio rápido!!!

          — Eu não falei? É o cão! É o tinhoso!

            — Credo-em-cruz!!! Vade-retro !!!

              Dizem que depois dessa o Pirraça se converteu, distribuiu a branquinha prá quem quisesse, e até prometeu recompensa prá quem encontrasse Enguiço .

              Chico levou um bom tempo sumido, uns dizem que ele tava ajustando a dentadura, outros dizem que ele nega tudo, que ele não  se  alembra  de  nada, que ele nem num conhece Pirraça nenhum .

              Sei, não... será que o Chico tá variando ????

Cabo Frio, 12 de dezembro de 1995.

Sergio Santa Rita


 


Warning: Unknown: write failed: Disk quota exceeded (122) in Unknown on line 0

Warning: Unknown: Failed to write session data (files). Please verify that the current setting of session.save_path is correct (/tmp) in Unknown on line 0