Chico e a Cotia

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No auge da narrativa, Chico enveredou pela perigosa linha fronteiriça que separa o verídico do fantástico:

           — Mas se o senhor não for nem meu amigo, nem amigo da onça, se assenta aí, presta muita atenção, mode que é agora que a porrada vai comer entre essa disgramada e eu !!!...

       A galera em volta caiu na gargalhada. Fazia já alguns minutos que estavam todos de boca aberta a ouvir mais uma das estórias de Chico e suas caçadas. A cada vez que contava o causo, Chico conseguia tornar mais eletrizante o desfecho. E agora ?, de que forma terminaria aquela façanha ? Em que ponto da narrativa se poderia colocar algum senão e duvidar-se da veracidade do ocorrido ?

       Mas, são tantos os causos, foram tantas as caçadas, e aqui estou eu a tomar o seu precioso tempo, iniciando este precário registro por uma estória tão fraca, não era bem essa que eu queria contar. A estória é bem outra, mas tenha paciência, peça algo prá mode matar a sua sêde, e assunte bem pro que eu vou lhe contar, nem pense sequer por um momento em duvidar, se acalme homem !!!, eu já lhe conto...

        Sucedeu-se o presente causo lá prás bandas do sertão bravio de Mato Grosso. Daqui de Cabo Frio, Chico levou na comitiva alguns já calejados no ofício e, por muita da insistência, alguns calouros. Neste particular sucedido, estavam: Chico, Cleonício, Nini, Ivo-sete-cordas, Manel B.V., Gugú, Agildo e Juca , por apelido Ronaldo. Quem chegou atrasado, tinha ido ali na Ponta-da-Areia fazer um churrasco, já voltava, mas o ônibus quebrou, ele não chegou a tempo, foi Danilson, ausência muito da sentida. Serginho do Atacadão tava vai-não-vai, vai-não-vai, acabou não indo, Tânia, a pessôa da patrôa dele, não deixou, disse que o colesterol dele anda tão alto que o médico falou que só consegue medir usando antena parabólica da SKY.

       A despedida teve festa na Parókia, é claro !, foi coisa supimpa, biriteiro que não compareceu, tá até hoje arrependido. Lineu cantou, mas não foi prá subir, ainda não; Anilson tava meio jururú, disseram que era preocupação com o namoro da cachorra dele mais Lenine ; Tippi fez jura braba de que não ia dançar com ninguém ; teve uma hora que Mendes cismou de pagar a despesa sózinho e aí todo mundo se benzeu – "isso é final dos tempos!!!" , "credo-em-cruz !!!" ; e Gugú pediu pro Luciano um dó-maior, dos grandes, o maior que ele tivesse no violão, mas antes de cantar ele avisou:

            — Se alguém disser o nome dela, se alguém disser o nome daquela ingrata, eu juro!, eu saio na porrada !!!

       E às quatro da manhã, a comitiva tomou o rumo do interior do sertão de Mato Grosso. Após três dias de viagem, com muito pit-stop,-"vâmo pará prá beber!!!", "pára que eu quero mijar!!!", "ólha, prestatenção que a cachaça tá acabando!!!", "vâmo pará naquela vendinha, tomar um dreher?!?!", "Ô, Chico!, ainda falta muito?", enfim chegaram no pouso do sítio do Juvenal, amigão do Chico.

       Dia seguinte, manhãzinha, embrenharam-se na mata. Juvenal havia providenciado uma cachorrada danada de boa e após um certo tempo de marcha batida pararam e armaram acampamento. E aí deu-se a polêmica:

            — Quem vai preparar o rancho ?

            — Deixa comigo !!!  – disse B.V.

            — Faço questão !!!  – garantiu Gugú.

            — O primeiro rancho é meu !!!  – assegurou Nini.

       Chico então botou ordem na casa, digo, no rancho:

            — Vocês são convidados, quem faz o rancho sou eu.

       Saíram todos prá caçada, levando arma à beça, munição farta e muita disposição. Ficou Chico no acampamento, garrucha à cinta, preparando o rancho. Próximo à hora do almoço, dispôs pratos e panelas sobre uma enorme árvore tombada, a qual serviria de improvisada mesa. Foi aí que a cachorrada do Juvenal, já voltando, desentocou um bicho:

            — Au!Au!Au!Au!Au!Au!Au!

       Chico empunhou a garrucha e aguardou o que vinha. Eita! que lá vem a cachorrada e na frente uma cotia. Ela vinha em direção à árvore, ali era sua toca, descobriu-se depois. Vinha embolada com três ou quatro cachorros e chegando junto da árvore, Chico não teve dessa, mandou bala:

            — Pá !!!

       Tava uma confusão danada de perna de bicho prá tudo que era lado. Chico, que nunca perdeu um tiro, duvidou, chegou até a pensar que acertara um dos cachorros, mas Chico perder tiro, é ruim hein!!!...

       A turma vinha chegando atrás da cachorrada e ajudou a desarpartar. E quem morreu foi a cotia, desde já lhe conto, pro amigo não ficar no suspense:

            — Valeu, Chico !!!

            — Caçador bão é isso, a caça é que procura ele !!!

            — E você viu?, foi um tiro só, hein ?!?!

            — Vâmo discarnar o bicho ?

       Pegou-se a cotia e após minucioso exame assombraram-se todos:

            — Não tem buraco de bala !

            — De quê qui esse bicho morreu, sô ?!

            — Cê deu porretada in nela, Chico ?

            — Vai ver morreu do coração.

            — Pode ser picada de cobra.

            — Tá morta mêrmo ???

       E agora?, como explicar?

       Chico pegou a faca e autopsiou a cotia de cima para baixo. Quando a faca passou cinco dedos abaixo do pescoço, relou na bala:

             — Quêquéisso , "sêo" Chico ?!?! – assustou-se o bom Juvenal.

       Chico parou e examinou o bicho novamente e encontrou a saída, digo, a entrada da bala:

           —  Espia só, gente!!! O tiro acertou bem no fiofó da cotia e subiu até os peito da coitadinha !!!

            À noite, fizeram uma bela fogueira e Nini fez cotia à sobrêdantê, coisa de se lamber os dedos e os beiços. Ivo caçou um dó-maior bem parrudo e Gugú trovejou, cheio de saudade:

             — " Já tive mulheres ...

                        de tôdas as côres... "

       E aí, Manel B.V. filosofou com sabedoria:

            — Tão bão ...

           Bem, foi assim que me contaram.

            Eu cá comigo não duvido de nada, a trajetória de uma bala tem razões que a própria garrucha desconhece.

            Pode-se também aventar a hipótese da cotia estar correndo de ré no exato instante do tiro.

            Ah! não me cobre uma teoria científica práquele tiro tão certeiro, arranje uma você ou então pede pro Chico prá lhe levar na próxima caçada...

                            Cabo Frio, 28 de novembro de 1995.

Sergio Santa Rita


 


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