Sant 'Anna , toda feliz ...

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        O relato a seguir, impõe a premissa de que não se deve jamais duvidar da autenticidade dos fatos. Se a verdade nem por perto sequer passou, também não deve de ser mentira absoluta, sempre cabe uma dúvida. O senhor que me lê, não me tenha em má conta, olhe, mire,  veja, sucedeu sim, posso lhe assegurar. Há tanta invencionice por aí, mas este não é o caso, lhe agaranto. Desarme-se, homem, sou apenas um pobre escriba a tentar alinhavar neste meu modo arrevesado, aquilo que presenciei de ouvido.

       Estava eu posto em sossego tomando uma gelada no bar do Giovanni   - o japonês de Nápolis - , quando  irrompem  álacres  e efusivos  numa sêde de travessia de deserto, dois biriteiros da pesada, Cândido e Agildo. A excitação de ambos era evidente. Após beberem dois  "holly-springs-on-ice" conseguiram  enfim  dizer algo inteligível:

            — E aí, mano velho, tudo bem ?!?!

            — Pô! cara !, tu não sabe o que aconteceu !!!

       Bem, eu não carecia de perguntar, eles tavam loucos de vontade de contar. Sucintamente, prá não tomar muito do seu tempo, lhe faço o resumo. Sucedeu-se o seguinte:  por ocasião da Festa de Sant'Anna da Vila Nova, achou-se o Maestro no mato-sem-cachorro na hora de por a Banda "Capim Gordura" prá  tocar na  procissão da Santa. Por causa  do quê ? Ora, porque justo no dia, na hora de maior precisão, foi informado de que alguns dos seus músicos encontravam-se adoentados. E agora, José ? o que fazer ?

       Mas  o  Maestro não  se aperreou e ao volante de seu intrépido fusquinha rodou pela cidade à procura de substitutos. Se  informa  daqui, pregunta d'acolá, o abnegado homem foi parar aonde ? , me  diz "sêo" môço, aonde ? , na Parókia é claro !!! , pouso  certo de "nêgo" bom de copo, viola e gogó ... e também de piston, tambôra, bandolin,  réco-réco  e o escambáu !!! E como todo bom  biriteiro é, antes de tudo, temente a Deus, não  houve  quem  recusasse  a convocação.

       E o time  de  substitutos  ficou  assim  escalado:

             No piston, Jessézinho.

             No surdo de marcação, Manel Barriga Verde.

             Na tuba, Agildo.

             No  tarol, Chico Espolêta.

             E nos pratos, Cândido.

       O Maestro voltou todo feliz prá Vila Nova, o sucesso da procissão estava garantido. Difícil foi botar uniforme de Banda nessa galera, abotoar túnicas e fechar zíperes. Mas, - "com cuspe e com jeito, não há paletó estreito" - me garantiu Agildo...

       Por volta de quatro e meia da tarde, todos a postos. Nem  ensaio não houve, ia ser do jeito que Deus quisesse  e  que a Santa, maior interessada, ela que ajudasse. Os cinco "voluntários" já ardiam de sêde, desde o momento da irrecusável convocação até à formação propriamente dita, nada haviam bebido. O sagrado falava mais alto que o profano mas, mesmo assim, a desobediente língua já ressequida tava talqualmente uma lixa calafate e pedia alguma coisa de beber ... menos água, é claro.

       E então garbosa, um  tanto  elegante, um tanto desafinada – só um pouco - , a  "Capim Gordura" desfilou  impávida pelas modestas ruas da Vila Nova, sob a ainda quente tarde daquele inolvidável sábado Seguiu ruas, dobrou esquinas, convocou  penitentes,  fez a moça suspirar na janela ...

       E lá adiante, frente  à casa do festeiro, parou, porque parar é preciso, que a Santa é de barro e também porque tocador quer beber, ora se quer...Vai  daí  que, às escondidas do Maestro, o litro  correu  à  farta.

       Refeitos  os ânimos,  saciadas as sêdes,  - "Vâmo-que-vâmo" - , convocou o Maestro. E foi logo depois que a maionese desandou e sucedeu-se o infausto. Bem, não foi logo assim de saída...mas também não demorou muito .

       Mais prá frente, já bem meio caminho andado, as beatas cantando  "O meu coração é só de Jesus...", alguém do quinteto convocado destrambelhou o ritmo e o do piston distraidamente  assoprou:

             " Marina, morena Marina, você se pintou..." ]

      Manel  BV, ajustou  a marcação – presente !

             " Marina , você faça tudo, mas faça o favor..."

     Chico tarolteou alegremente  --   tô nessa !   

             " Não pinte esse rosto que eu gosto e é só meu..."

     Cândido fez tchááá-tchááá-tchááá --  valeu!

             " Marina, você já é bonita , com o que Deus lhe deu..."

        E Agildo fez pam-pum-pam-pum-pam-pum -- legal !

       O pessoal do andor da Santa, mais próximo da Banda, aderiu de imediato ao novo ritmo, e por uns breves momentos Sant Anna bailou, toda feliz, nos  braços  do povo. Sim, breves porque o Maestro ao perceber a heresia, recompôs o decoro exigido prá ocasião e voltou aos  hinos sacros. Dizem as más-línguas - eita! povinho maledicente !  - que desde a procissão que a Santa nunca mais foi a mesma, que  parece  que ela tá com um certo sorriso, digamos assim, um tanto feliz demais, até mesmo meio ...safado. Bando de hereges ! cretinos ! Onde já se viu ?!?!   

       Bem, foi assim que me contaram, não somei nem subtraí. Salpiquei apenas uma pitada de poesia aqui ou ali, já  não sei nem bem aonde.

       Duvida, o senhor ? Confira o senhor mesmo, vá à próxima procissão. Se achar Sant Anna um tanto carrancuda assovie, baixinho, "Marina Morena" . Pode ser que de repente se perceba um gingar diferente no andor, ou um leve sorriso de saudade aflore nos lábios da Santa...  

             Os cinco " voluntários " ?

             Estão por aí mesmo...

             Se aconteceu?... se é verdade ?...

             Eles lhe dirão...

                                 ou não...

             Talvez depois de uns dois ou três "holly-spring"  ,

                                               quem  sabe? ...

 Cabo Frio, 08 de agosto de 1994.

Sergio Santa Rita


 


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