Pantanal

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       A maionese começou a desandar na estrada. Ah! aquela viagem ia ser do baralho, tinha até campeão de "truco" a bordo .

            — Tem um ba-... um ba-... um barulho estranho aí...

            — Barulho ?! que barulho ?!

            — Deve de ser no porta-luvas...

            — É nas fitas aí na porta, só pode ...

            — Tô ouvindo nada não...

            — É ! a manguassa já fez efeito ...

            — Bebí nada ainda ...

            — É ruim de tá puro, hein !!!

            — Agora não posso dirigir, tô meio ruim, mas daqui a uns quinze minutos, é só me chamar...

            — Um ba-... um ba-... um ba-...

            — Barulho ?

            — Ba-... babaca !!!Tá ouvindo não im-...  imbecil ?!?!

            — É mesmo ! tem um barulho aí ...

            — Barulho ?! que barulho ?!

            —Es-... es-... escuta. É assim ó !, esgulhépe, esgulhépe, esgulhépe!

            — Pára pôrra !!! É o pneu , cacêta !!!

            — Que pê-...pê-...pêneu ??? pê-...pêneu  a-...a-...aonde ???

            — Ô merda !!! o carro tá andando de banda pôrra !!!

            — Quem...quem...quem que tá dirigindo ???

            — É você , pôrrrrrrrrrrrraaa !!!!

            — Ê-...ê-...eu ?!?! Pô ! i-...i-...i-...nem me avisaram ....

       Aí pararam prá trocar o pneu. Tira tudo do porta-malas prá achar o ma-... o ma-... o macaco (crédo! isso péga ! ), a chave de roda e o sobressalente. Não era lá um baita de um macaco, com bôa vontade dava um sagüi-piranga e olhe lá... mas chave de roda, nem prá remédio, não se achou nem com reza braba... e o sobressalente ? capilarmente falando parecia com a cabeça do Norival, tava liso, liso, liso ...

       E agora ? um sagüi ...sem chave ...e um sobre-Nori bem furreca.

       Mas Deus é grande e tá sempre de bôa-vontade com as crianças, os bêbados e os pecadores, digo, pescadores, digo nada, quero dizer, Êle é um tremendo gozador e dá sempre um jeito...

       Vai daí que ...

            — Buenas tardes !!!

            — Buenas...

            — Que pása señores ?

            — Lo peneu se fuê ...

            — Ustedes son de Cabo Frio ?

            — Si...

            — Coñeces Manuel, El Galiña  ?

            — Mui amigo nuestro ...

       Pronto !!! precisa dizer mais alguma coisa ? ....

       Vida que segue, o  rádio tóca sem parar os sucessos de Jéro e Júnior. Mas, de repente, a embreagem deu a breca e daí tem-se que parar de novo:

            — De quem que é esse carro ?

            — Da minha mulher...

            — Ela dirige o tempo todo com o pé na embreagem, não é ?

            — Aprendeu com a sua mãe.

            — Pára ali que tem um bar !!!

            — Eu quero mijar.

            — Eu tô com fome.

            — Eu também.

            — Tem que achar uma oficina.

            — Primeiro vamos comer.

            — Ali, ó ! "Bar da Língua" .

       A dama por detrás da registradora era de uma formosura ímpar. Aliás, ímpar  era o seu dente inferior, reinando absoluto no centro geográfico daquele deserto de gengiva, o que obrigava sua língua a malabarismos aeróbicos, por vezes à direita e outras à esquerda. Sibilava em ambas as ocasiões:

            — Por quê que chamam de Bar da Língua ?

            — Chhhê  chhhi fochhhê accchhha ?

            — Que qui tem prá comer ?

            — Chhhê  chhhi fochhhê accchhha ?

            — Tô fora !!!

       Mais adiante,  " Oficina do Zé "   anunciava em letras garrafais a   tabuleta  na  porta da humilde  oficina:

            — Sabe onde é a oficina do Zé ?

            — Será que roubaram o meu letreiro ???

            — A embreagem foi pro cacête...

            — Quanto tempo vai demorar o conserto ?

            — Umas quatro horas...

       Hora e meia depois...

            —  O carro tá pronto. Vâmbora ou não vâmo ?

            —  E aí “sêo” Zé, quanto é que é o conserto ?

            — Dou vinte contos procê me levar esse careca filhadaputa prá fora da minha oficina !!

       Pé na estrada, roda que roda, sobe serra desce serra, prá riba, prá baixo, tá ficando perto, tá-se quase lá, mas descendo uma lombada em curva, quase que deu-se:

            — Freia, pôrra !!!

            — Já freiei , cacête ! o carro não quer parar !!!

            — Essa merda vai cair dentro da vala !!!

     BANRÃO-BLÃO-BLEN-TLEN-KKLAMPOU-TEBLÉFFF

            — Viu ? se eu não freio...

            — Esse Turco se aproveitou e bateu na minha caréca !!!

            — Bati pôrra nenhuma !!!, você bateu com a cabeça no teto...

            — Bateu !!! faz tempo que queria bater !!!

            — A culpa é sua, fica exibindo essa caréca, não dá prá agüentar !!!

            — Eu vou comprar um facão, você vai ver...

            — Ah! é?!?  Aí eu compro 12 facas Ginsu...

       E lá em Puerto Murtinho, teve até reedição da Lei Sêca:

            — Ou são cinco garçonetes gêmeas , ou tem uma filhadaputa aí que não quer servir a gente...

            — Eu tô cum sêde...

            — Eu quero mijar...

            — Aí vem ela de novo...

            — Ou então é a irmã dela...

            — Minha filha, traz uma cerveja...

            — Trago não, meu patrão disse prá não dar bebida aos “alumão”.

            — A-... a-... alumão ?!?!

            — Péra aí, você já viu alemão careca ?

            — Careca é a puta-que-pariu !!!

            — Era só prá dar exemplo...

            — Eu tô cum sêde ...

            — Eu vou matar esse Turco...

            — Minha filha, se a gente fosse alemão, cuméquié que você ia entender o que eu tô falando com você ? heinnn?

            — É !!! Mas ontem essa turma aí do sinhô , até o careca!!!, tava tão ruim que não dava prá entender nada, parecia “alumão” mesmo ...

            — Careca é a puta-que-pariu !!!

            — Viu ?!?! tá mal-criado igual a ontem ...

            — Traz uma brahm-... uma brahm-... uma brahm-...

            — Brahma ???

            — S...  S...  S...  Skol !!! im-... imbecil !!!

            — Trago não !!! é tudo mal-criado mesmo!!! vai beber não ..

       Dia seguinte:

            — Que uísque era aquele ?

            — Paraguaio...dos bão...Viu a cor? Igual a caldo-de-cana ...

            — Quantos años ?

            — Uma criança... um niño... doze años...

            — E ele bebeu tudo?

            — Tudinho...

            — Ele tá muito quieto.

            — Tá em coma profundo.

            — Vai acordar com uma sêde.

            — Tem problema não, no Pantanal o que não falta é água...

            — Mas, e o bafo ? ...

            — Ah!, aí  periga de uma onça se apaixonar por ele...

            Peixe ? Alguém falou em peixe aí ?

Cabo Frio,  03 de janeiro de 2000.

Sergio Santa Rita


 


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