O amor é lindo ...

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        Já se estava ali mais ou menos pelos quarenta  e quatro minutos do segundo tempo daquela esbórnia quando o nobre  e  distinto rábula adentrou  - de terno e tudo - o babilônico recinto. Já visivelmente adernando de bombordo , com o lado boreste  um  tanto avariado , pediu  e  obteve  silente  asilo  junto  a Marinho.  Léo  veio e,  solícito, serviu-lhe  um  uísque  e  ele então quedou-se  em  absorto  mutismo.

       As  diversas  e  múltiplas  conversas  paralelas ,  muitas congruentes e todas conflitantes , nem sequer se  aperceberam  do  seu  ingresso  na  roda,  da mesma forma que não se notavam as despedidas precedidas das mais esfarrapadas desculpas e inevitáveis ameaças de “amanhã eu volto ! “ .

      Foi aí então que o celular do Marinho tocou então mais uma vez. A irritante musiquinha tocou várias vezes seguidas. Marinho olhava em direção ao outro lado da mesa , na diagonal, coisa de mais ou menos seis metros, e balançava  negativamente a cabeça. Despertando de seu aparente torpor, o competente e nordestínico causídico questionou :

             —Não vai atender ???

             —Ah ! não ! Não vale a pena, é um caso encerrado.

    Do outro lado da linha, na diagonal, Renato olhava para Marinho, olho no olho, querendo uma resposta imediata  para a  esbórnia  que  haviam        planejado  para o   “ Etílico ", onde Zécutivo  e  Gegê  já haviam reservado mesas para  aquela noite.

    Necessitado de uma urgente resposta, Renato tornou a ligar.

    Marinho repetiu o gesto anterior; via-se , definitivamente, que ele não queria atender. Incomodado pelo repetitivo som do aporrinhante aparelhinho, o devoto de Padim Ciço pediu-lhe :

             —Posso atender ?

             —Vai , atende, mas diz que eu não estou.

    Renato, que a tudo observava, iniciou então, com aveludada voz de falsete , uma insólita conversação :

             —Alõ ?

             —Sim, pois não ?

             —Marinho ?

             —Não, ele não  está.

             —Ah! Eu preciso tanto falar com  alguém  ...

             —Fala que eu te escuto.

    Duas cadeiras mais pra direita, Juca e Cebolinha travavam áspero duelo verbal sobre a língua-pátria  :

             —Esse Pasquale é uma besta  !!!

             —Você está enganado.

             —Não estou não. Essa preposição é partícula apassivadora e remete  a conjunção ao pretérito-passado do avérbio-futuro.

             —Lêdo engano seu. Isto só ocorre em casos relativos ao pretérito-futuro do advérbio-passado.

             —Na-na-ni-na-não . Nunca , jamais .

    Quase em transe onírico, o diálogo mezzo-agreste , mezzo- jumentino, mezzo-pornô , prosseguia :

—      Você é loura ?

—      Sou. E até mesmo nos meus pêlos subalternos.

—      Você tem uma voz tão rouca, tão sensual.

—      Você é que tem , essa tua voz de comedor de calango.

—      Você ainda não viu nada. Se eu armar a minha barraca, você vai ver o meu baita calangão, é calango de dar em doido.

—            Du-vi-dê-o-dó. Isso deve de ser calanguinho de circo-de-cavalinho, calanguinho de retirante.

    Um tanto mais pra esquerda, não muito, o João da Lefema adicionava pitadas de política a tão eclética reunião. Ao seu lado, o Dr. Domingues, PhD em fraturas, entorses e luxações, não resistiu à bola quicando na área e disparou de bate-pronto lá adonde a coruja dorme :

             —Não está caracterizada a materialidade da irresponsabilidade administrativa. Falta constitucionalidade ao embasamento jurídico.

             —Caraca !!! É isso aí, sem  tirar nem  pôr !!!

             —Não te mêta !!!

    E via EMBRATEL a coisa tava ficando quente :

             —Se eu te pego , eu te faço um estrago .

             —Faz nada, eu acho que você é só de prometer .

             —Eu arranco as tuas ceroulas com os dentes, mordo a tua bunda, eu te rasgo todinho.

             —Arre - égua !!! você  é  fogo !!!

             —Eu quero te conhecer.

              —Então me encontre amanhã à tardinha lá no Tia Maluca.

       Dizem que ele foi, mas o encontro não aconteceu por causa de uma certa ocorrência tida e havida lá naquelas bandas, uma confusão danada, rolou muito uísque, teve até fieira de cabeça-de-nêgo amarrada em perna-de-calça, gente pulando no canal, camburão da PM, guarda municipal desviando  o  trânsito, o cacete-a-quatro e o escambáu !!!!!

       De lá pra cá, andam divulgando que agora ele só se senta ao lado do Marinho e fica arriando um olhar pidão e cheio de luxúria pra riba do celular do outro. 

        Renato e Marinho ficam parecendo depoentes de CPI : “eu não sei de nada “, “ eu não me lembro disso “, “ boto meu sigilo telefônico à disposição “ , “ eu acho que eu nem estava aqui nesse dia “ .....

         Sei não, pra mim isso é astuciamento desse povo invencioneiro que não tem mais o que fazer e fica mangando dos outros ...

Cabo Frio, 16 de agosto de 2005.

Sergio Santa Rita


 


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