À milanesa

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     Vagarosamente o "Busão do Tigrão" adentrou a pequena Travessa. No pára-brisas a licença da Prefeitura. A bordo, mais ou menos uns cinquenta "turistas". Do bar em frente, alavancado pelo terceiro copo do dia, Dinho Preto empostou a voz e assim narrou:

       — Taí o que você queria, Januário... Bola rolando no Maracanã...

     Alcides, mesmo já estando no quarto copo, diagnosticou:

       —Tem baranga a dar com páu........................................................

       E então começou a operação desembarque... Do interior do bagageiro foram extraídos, não necessáriamente nesta ordem, 750 latas de cerveja, 3 engradados de 51,   12 dúzias de limão, 4 pandeiros, 5 réco-récos, 7 tamborins, 2 cuícas, 3 surdos-de-marcação, 4 agogôs, 3 chocalhos,  4 repiniques, 1 surdão, 1 aparelho de som de 3500  watts PMPO,  93 Cds, 15 Kg de arroz, 17 kg de feijão preto, 1 fardo de carne-sêca, lingüiça, paio, toucinho,  12 travesseiros, 8 colchonetes, 7 ventiladores e cinco pinicos novinhos em folha. A  seguir houve sorteio para a ocupação dos 5 quartos e uma organizada distribuição de senha para a utilização do único banheiro. Para as mulheres, utilização irrestrita, quer a emissão fosse sólida ou líquida. Para os  homens, somente em caso de extrema necessidade sólida...

        Todo mundo já confortavelmente instalado, vamos à la praia. E sempre tem alguém mais prevenido que não esquece de levar   3  litros  de  51  e uma  dúzia de limão, mode  preparar um "cachorro-magro" prá rapeize ...

Em lá chegando, pratica-se originais travessuras,  tais  como  enterrar-se  até o pescoço ou fingir-se de suculento "bife-à-milanesa".

       À noite, já devidamente traçada a opulenta feijoada, após mais uma rodada de cervejinha bem gelada, deu-se início ao "furdunço", cujo repertório variou de samba, pagode, rap e funk, até funk, rap, pagode e samba. O nível sonoro atingiu incríveis 380 imbecisbéis e na batida do surdão obteve-se 9.9 na escala Richter, recorde absoluto na região.             

       Foi aí então que o vizinho da direita, já não aguentando  mais a esbórnia, ligou para a PM e obteve do pessoal cujo lema é SERVIR  e  PROTEGER, a seguinte resposta:

          — Positivo, operante. Ficamos honrados com o convite para comparecer ao local, mas o senhor vai compreender, a gente estamos de serviço e não podemos participar da festa, fica prá outra oportunidade...

       Ligou então, o vizinho, para a DP local. O detetive   de  plantão anotou o endereço e prometeu que entre a Semana Santa e o Natal ,  no  mais tardar no Reveillon, se a viatura já estiver consertada, ele vai mandar alguém ao local autuar os infratores e enquadrar todo mundo nos rigores da Lei.

       Ah! falta o pessoal da fiscalização... Após inúmeras tentativas, o fiscal de plantão que atendeu assegurou:

          —A gente não podemos fazer nada. Nosso  código  fala  até  em como carregar galinha debaixo do sovaco, mas não fala nada sobre esse seu caso aí... ..............................

       Foram 10 dias de puro terrorismo sonoro. E depois a mídia vem e fala de democracia, cidadania, lei, justiça, paz, sociedade organizada, passeata  prá isso,  passeata prá aquilo, disk-denúncia, 190, o escambáu, ora bolas...

        Sabe ?,  o que você acabou de ler  não é uma peça de  ficção .

        Aconteceu.

        E foi por aqui.

        Mas poderia ter acontecido em qualquer município vizinho.

        A  "zorra" é muito democrática.

        Não fique triste.

        Talvez  ainda  na próxima Semana Santa ela chegue até você........................

 Cabo Frio, carnaval de 2001.

Sergio Santa Rita


 


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