Uma antena baciólica...

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Quando Thiago chegou no bar do Manel Barriga Verde, apresentava o beiço cachacista tremendo que dava dó. Estaria o "negão" com bére-bére , seria maleita ou era mesmo uma sêde incontrolável ??? Nem cumprimentou ninguém e foi logo pedindo:

— Bóta uma com cambuim, ô Manel !!!

Foi como num número de mágica do David Copperfield, o cambuim , vapt, sumiu goela abaixo. Rápidamente, questão de segundos, o tremor beiçal foi diminuindo, diminuindo, e o baita etíope se acalmou quase que de todo. Foi se chegando pro canto, à espera da ocasião propícia e quando viu B.V. sozinho, aproximou-se e então anunciou-lhe a sua formidável idéia:

— Manel, nós vamos construir uma antena baciólica !!!

— Antena baciólica ?!? quimerdééssa, ô Thiago ?!

— Fala baixo, B.V. , as paredes têm ouvidos, pô !!!

— Mas, Thiago, o que é que eu tenho com isso, cara ?!? Não estou te entendendo, tu tá delirando ? tu já bebeu demais ?

— Calma B.V. , eu explico. Lembra que você falou prá mim que estava precisando comprar uma antena prá sua televisão, lembra? Pois é, eu tava lá no bar do Carlão tomando um rabo-de-galo e aí, de repente, me veio a idéia: dessa antena comum aí, todo mundo tem, porque que a gente não faz uma antena mais sofisticada, uma antena baciólica !!! Ah! B.V. a idéia é fabulosa, como é que eu nunca pensei nisso ?!?!

Manel começou a duvidar seriamente da sanidade mental do negão - "será que Thiago tá variando ? ou tá mangando comigo ? " :

— Thiago, me explica melhor essa estória de antena baciólica. Onde foi que tu viu isso, rapaz? Que diabo de antena é essa?

— B.V. , prestatenção! você parece que é burro! Antena baciólica é uma idéia minha de construir uma antena a partir de uma simples bacia. Mas fala baixo, pô! que eu ainda não tirei patente da invenção .

Foi aí que o Chico Espolêta entrou na parada. Ele estava intrigado com aquela conversa-ao-pé-do-ouvido havia se aproximado sem que os dois notassem e ouvira alguma coisa que lhe atiçara os instintos de emérito profissional de Física :

— Antena baciólica ? Também quero entrar nessa !

— Ô Chico, como vai a patrôa ?

— Não desconversa, ô Thiago !!!

— Thiago, conta pro Chico, que dessa área ele manja, ele tem mais conhecimento de causa que você. Se ele disser que o negócio é bão, eu tô nessa jogada.

Pobre do "negão" !!! A sociedade que seria de dois, já estava em três. Bem, depois de explicada a idéia, impôs-se a necessidade de se fazer uma relação do material necessário, já então com a competente supervisão do Chico.

Porém, um empreendimento de tal porte necessitaria de desenhos, plantas, perspectivas, croquis, maquetes , etc. E aí, por uma casualidade dessas do destino, quem adentra o recinto ? quem ? Cândido !!! Pronto ! estava formado o quarteto industrial. Ali nascia a Antenas Baciólicas Corporation Unlimited

O consenso quanto à relação de material não foi dos mais fáceis. Corta aqui, diminui ali, estica dali , enxuga d'acolá, após várias rodadas os quatro "sócios" chegaram à seguinte relação :

1 ) Uma bacia com aproximadamente 60,0 cm de diâmetro.

2 ) Um cabo de guarda-chuva.

3 ) Uma lata vazia, tipo dessas de feijoada.

4 ) 1 booster- thevear 300 W - 75 W , que

seria posteriormente colocado dentro

da lata.

5 ) 17,5 metros de cabo-coaxial amplimatic.

Thiago , já sonhava em vender seus “royalties” para a TV Globo. Chico calculava que o ângulo de inclinação da tampa da lata deveria ser de exatos 45 30 19 . Cândido rabiscava freneticamente, idealizando em escala reduzida, o projeto que mais tarde seria humanizado mostrando felizes telespectadores.

Manel B.V. fazia e refazia contas verificando se dispunha de numerário suficiente para um empreendimento de tão vultoso porte. Mas, de repente, passou-lhe pela cabeça uma pergunta fundamental:

— Mas e quem é que vai montar essa mérda ?

Thiago não deixou a beiçóla tremer:

— Ô B.V., deixa comigo! Você patrocina um churrasco com 12 Kg de picanha, 5 kg de linguiça “perdigão”, 6 kg de asa, dois garrafão de cambuim, umas três ou quatro caixas de cerveja... e eu monto a antena de graça !!!

E foi aí, justamente aí ,que a vaca foi pro brejo. B.V. sentiu cheiro de trapaça no ar e tratou de botar areia no negócio:

— Péraí !!! Eu banco o material, patrocino o churrasco, entro com os aperitivos, e quem é ? , me diga "sêo" Thiago , quem é que me garante que essa mérda vai funcionar ?

Ah! , a revolta foi geral. Thiago, Chico e Cândido sentiram-se lesados e cuspiram maribondos:

— Ô B.V., tu é muito morrinha !!!

— Vai ser muquirana assim, lá na casa do cacête !

— Tu não tem visão empresarial, ô meu !!!

Bem, dizem que Manel B.V. comprou uma baita de uma antena de 38 elementos que pega até estação lá das estranjas, mas que isso não é lá de muita valia por causa de que ele só sabe malmente português, e olhe lá !

Thiago encasquetou na idéia de ir no Rio registrar a patente da sua invenção e andou passando uma rifa de um rádio Transglobe-Philco-pilha-e-luz., mas foi flagrado lá no bar de Pernambuco - ele mais Dinho Prêto - numa esbórnia de dar gosto, quer dizer, num chegou nem na Ponta do Ambrósio.

Cândido andou sumido uns tempos e depois foi visto lá no bar do Geovanni junto com Agildo e Serjão, os três numa água só, e Jair Quequé que presenciou o encontro, divulgou que eles se riam muito acerca de um acontecido numa certa procissão.

O Chico ? Ah! ele diz que é tudo invenção de Thiago, que o que Thiago diz não se escreve, que faz muito tempo que ele não vai no bar do Manel, inclusive por causa de que ele acha que o B.V. é muito muquirana pro gosto dele.

Eu, por mim, não garanto e nem desminto nada, sei lá, esse povo é muito cheio de ... astúcia .

Mas adonde é , me diga, que já se viu usar bacia prá fazer vez de antena ???

Até porque, na minha humilde opinião, a serventia maior de uma bacia, deve de ser a de lavar as partes pudendas, você não acha ?...

Cabo Frio, 25 de janeiro de 1991.

Sergio Santa Rita