Barrabás

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Nasceu de uma barrigada de doze. Embora fisicamente nada o distinguisse dos demais, "Barrabás" logo se destacou pelo gênio debochado e irreverente. No sítio, "Bom-cabrito' - caseiro bem provido de sabedoria popular - logo diagnosticou:

—Esse bicho tem esprito-de-porco , "sêo" Zé !!! Num dá sussêgo prás criação, bóle cum tudo e donde ele tá é uma baderna só. Acho milhó o sinhô se livrá dessa peste, ele num arrespeita nada !!!

Mas, "Barrabás" , apelido que o próprio Zé pusera nele, ainda era pequeno, carecia de encorpar mais um pouco prá mode ser passado na faca. E enquanto isso, fazia estripulias à pamparra, acabando com o pouco de paciência de "Bom-cabrito", sujeito muito do bão, bastante entendedor das lidas de plantação e criação mas, porém, quase desmuniciado de pavio. Fuça daqui, rompe dali, cavuca d’acolá, não se passava um só dia sem que "Barrabás" não deixasse aperreado o pobre do "Bom-cabrito". Quando Zé chegava no sítio, era um manancial de queixas:

— "Barrabás" fez isso, "Barrabás" fez aquilo, "Barrabás" fez e aconteceu, esse bicho num presta, num güento mais cum esse bicho, tome tento, num dô conta do meu selviço cum esse bicho me aporrinhando "sêo" Zé !!! “

Mas o Zé não estava nem aí prás queixas de "Bom-cabrito". E "Barrabás" , rosado como ele só, ficava a cada dia mais e mais uma belezura. Seriam os olhos amorosos do Zé ? Não, realmente "Barrabás" crescia a olhos vistos e o bicho estava mesmo danado de bonito. De toda a criação do sítio ele era mesmo o mais porrêta. Nas inúmeras vezes em que ele, desconhecendo divisas, invadia o mandiocal do vizinho, lá ia "Bom-cabrito" atrás dele a refazer cercas, a disfarçar rastros e a esconder o mal-feito.

Porém os festejos de N. S. D’Assunção se aproximavam e D. Elzinha, mui devota senhora do "sêo" Zé, queria ofertar à Santa uma prenda de grande valor para ser leiloada no dia principal da festa. E então, uma semana antes, indo ao sítio, ela pôs distraídamente os olhos em "Barrabás":

— Veja, Zé !!!que bela prenda !!!

Pronto... estava sacramentado o destino de "Barrabás"...

Zé ainda tentou barganhar. Propôs uma dúzia de gordas galinhas, mais cinco ou seis "tô-fracos" e uns dois ou três irmãos de "Barrabás" mas não teve sucesso.

Santa é Santa, promessa é promessa, e mulher quando encasqueta com uma coisa, não tem ora-pro-nobis nem barganha, é fogo !!! e aí não houve jeito.

No meio daquela semana, parecendo adivinhar seu fatídico desenlace, "Barrabás" capou-o-gato e sumiu na capoeira. Por dois longos dias andou "Bom-cabrito" no rastro da prenda. Foi encontrá-lo a quase cinco léguas de distância e arrastando-o de volta sapecou-lhe um discurso: .

— Bicho adivinhão, danado da peste !!! Deixa estar que tu tá prometido prá Santa, e D. Elzinha nunca jamais que faltou cum a palavra dela, seu excomungado !!! aparentado do tinhoso !!! filho-duma-que-ronca-e-fuça !!!

No sábado pela manhã, "Barrabás" foi lavado e escovado nos altos e nos baixos. Seguiu feito um "lorde" prá cidade mas bem se via que ele não estava gostando da novidade...

Domingo à noitinha, "Barrabás" foi transportado da casa do Zé para debaixo do palanque, onde mais tarde uma Banda de axé-music iria se apresentar. Em pouco tempo a festança ficou animada e "Barrabás" quedou assustado com tanta animação à sua volta. E então, bem alimentado que estava, tirou um cochilo, e ferrou no sono.

Leiloeiro de mão-cheia, Zé chegou no auge da festa. E aí aconteceu leilão prá ninguém botar defeito. De galinha-assada-com-farofa, de baixela-de-prata, de vaso-de-planta, de toalha-de-renda, e até de pinico-de-barro que o Zé garantiu não enferrujar e ter muita serventia nas horas de precisão. Prenda vai, prenda vem, o povão estava mesmo era interessado em saber quem que ia arrematar o já então famoso "Barrabás", que ferrado no sono estava e ferrado continuava. Zé já havia adiado o tanto quanto podia o desenlace da situação, mas então não tinha mais jeito, eis que era chegada a hora de "Barrabás" :

— E agora, senhoras e senhores, vamos abrir o leilão dessa formidável prenda. Vamos lá. Trezentos reais!!! Quem me dá trezentos reais ?!?!

Bem, o Zé pediu alto já está se vendo, mas foi mesmo de propósito, só prá desestimular qualquer pretendente. Mas, lá do meio da galera, um baixinho da Gambôa topou a parada e desafiou:

— Trezentos e dez!!!

E agora, "sêo" Zé ?!?

Zé olhou em volta, ninguém mais se manifestou, mas ele apontou ao acaso e mandou :

— Trezentos e trinta pro cavalheiro ali !!!

O baixinho, que estava mesmo decidido, devolveu:

— Trezentos e cinquenta e o porco vai prá Gambôa !!!”

Vai, não vai, vai, não vai, vai, não vai, vai, não vai, foi bem aí nessa hora que o Juninho, técnico de som da Banda África, ao tentar ligar o amplificador na meia penumbra debaixo do palanque, enfiou 220 Volts no focinho de “Barrabás”. E o pobre do dezinfeliz que até então tinha se mantido alheio àquela balbúrdia, definiu a questão :

— " ÉÉÉUUIMMMM !!!” – ( tradução: É ruim, hein !!! )

E aí o Juninho aprendeu, na marra, que focinho de porco não é tomada. “Barrabás” se enfureceu, destruiu o cercadinho onde estava, e desembestou pela rua dos fundos de rumo batido em direção ao bairro da Passagem. Dinho Prêto que tinha ido atrás do palanque mode mijar divulgou que das ventas do bicho saía um faísqueiro danado, eita! sujeitinho mentiroso!!!.

No sábado seguinte teve uma folia enorme no bar do Carlão, lá na Passagem. Só de tocador, prestatenção no time: Mamaco, Barril, Hermínio, Martinelli, Ivo-sete-cordas, e mais Saúde, Manel B.V. , Chico Espolêta, Agildo, Cândido, Jessézinho, Belezinha, Serjão, Wanderley-da-Caixa, Jair Quequé, Chinho, Tippi, Carculé, Chico-pato-rouco, Vovô Nini, e mais gente a dar com páu.

Carlão quase que quebrou uma jura que ele tinha feito de não cantar nunca mais, por causa de um certo acontecido lá na Divertilândia aí ele engasgou de emoção e aí não cantou, mas foi quase. Dizem que ele resmungava :

— Ah! Cafu ! Eu ainda te pego de jeito ...

Na entrada do bar Carlão colocou uma tabuleta que anunciava o cardápio do dia:

Temos

PACA

na

brasa

Foi um festão!!! Lamentou-se apenas a ausência de Zé-que-não-dança. Uns dizem que ele tava ainda muito do amuado com os acontecidos do leilão, outros dizem que Zé não foi por causa de que ele não é chegado a carne de caça...

Sei não...

Eu soube que aí teve um outro dia em que apareceram dois caras lá em Carlão, beberam e comeram à farta, despesa de vulto, depois deram parte de ser do IBAMA e Carlão anistiou a despesa....

Sei não... aí tem ...

Cabo Frio, 11 de agosto de 1994 .

Sergio Santa Rita