Tom Mix ...

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          Era cedo, ainda era muito cedo, mas Renato já não conseguia mais dormir. Levantou-se, pôs água pra ferver, foi à padaria, voltou e fez café. Fumou um cigarro, depois outro, quase meio maço. E foi aí então que ela chegou.

          Ao volante da sua intrépida Rural Willis, eis que chega D. Iracema. A bordo, traz as delícias da fazenda. Tendo a gula como isca, ela pensa em afastá-lo da boemia.  Tendo a gula como vício, ele está quase capitulando. A doce senhora adora aquele genro traquinas. O doidivanas adora aquela doce senhora.

         Mas desta vez D. Iracema se superou. Além das gostosuras de sempre, trouxe três galinhas  de fazer peru de natal ficar com complexo  de  codorna  subnutrida. Cada uma pesava mais ou menos  5 Kg e 700. Renato salivou intensamente e deixou escapar um sonoro:

            — Puta-que-pariu  !!!

          Nos três dias em que aqui ficou, D. Iracema, de conluio com a pessoa-da-patrôa     do      Renato,    deu    prosseguimento  ao seu plano “ A gula é um pecado delicioso “  . Ao saborear uma das galinhas , à moda cabidela , foi aí que quase que  o Renato entrega os pontos e se muda pra fazenda.

       Quando enfim D. Iracema se foi, Renato ligou para o Gentil e disse:

            — Gentil, meu irmão, diz pra galera que eu estou lascado de sede, diz que eu estou voltando , e diz que não adianta arrecuar os arfe, que eu vou-entrar-com-bola-e-tudo...

          No encontro lá no Gargamel, Renato já foi exagerando o tamanho das duas criaturas restantes :

             — Olha , Gentil, é galinha mais ou menos assim – mal-comparando -  coisa de dois dedinhos menor que aqueles avestruz que o Alair cria lá em São Jacinto. É ver pra crer, Gentil . E só tem uma pessoa a quem eu confiaria a guarda daquelas duas belezuras, e é você, Gentil, elas vão ficar com você.

            —  Deixa comigo ...

          E então ficou tudo acertado. As super-galinhas seriam degustadas lá em D. Cremilda, aprazível reduto gastronômico freqüentado por um seleto grupo, uma confraria quase que secreta, são poucos os iniciados nas delícias preparadas por D. Cremilda.

          Um pouco antes da data aprazada, Renato disse pro Gentil :

             — Amanhã, Zé-que-não-dança passa na tua casa e pega as galinhas.

          Foi aí então que Macarrão, que não havia sido convidado, de posse de informação tão preciosa, resolveu surrupiar o produto. No dia seguinte Gentil entregou de boa-fé a encomenda ao suposto emissário de Zé-que-não-dança, e o comparsa de Macarrão sumiu com as afamadas aves.

          No dia marcado para a galinhada, a confraria reuniu-se ansiosa lá em D. Crê. Mas, de equívoco em equívoco, as galinhas sumiram feito Conceição, ninguém sabe, niguém viu. Zé não foi mas mandou Carlinho Pequeno, Gentil entregou mas o cara era grande, e agora José ? , quéde as galinhas sêo Gentil ? , mas que marmota é essa ??? .

          D. Cremilda, coitada, guardou os temperos e disse com sabedoria :    

             — Inda bem, não ia caber mesmo nas minhas panelas...

     Passado um tempo, uma notícia incendiou a imaginação de todos:

              — Milton Roberto achou as galinhas.

          Várias versões para o sumiço e o posterior resgate foram debatidas lá em Gargamel. Muita especulação, muita fumaça, pouco fogo. De certo mesmo é que no sábado estariam todos reunidos no Tia Maluca para enfim degustar as fabulosas galinhas de D. Iracema.

          Milton deu divulgação ampla geral e irrestrita ao evento. Convocou a mídia na pessoa dos radialistas Gilson Ferreira e Ademilton Valério. A segurança de tão portentoso evento não foi esquecida, contando-se com a presença do Delegado da 126ª DP. Mas o “hômi”, depois da 8ª caipirinha, queria por que queria enquadrar o Gentil como cúmplice no sumiço inicial das galinhas. Mas Gentil não passou recibo, desrespeitou a patente do homem e mandou ele tomar nas partes, no que foi aplaudido de pé pela galera.

           Mas as galinhas servidas pelo Milton, eram mais falsas que nota de três dólares, mais fajutas do que broca de vídea de Loja de 1,99. Pra compensar, o chopp rolou farto e bem gelado e bem servido pelo bom baiano.

          Foi aí então que por ocasião do aniversário do Gentil, a galera organizou uma big festa lá na Casa dos 500 Anos. Com Campa no comando das ações e a competente assessoria de Zé-que-não-dança e Renato, estavam todos muito felizes em homenagear tão querido e estimado amigo.

          A decoração era no estilo faroeste, e Gentil compareceu devidamente fantasiado de Tom Mix, com colete, revólver, cartucheira e estrela de xerife. A animação era geral, e em meio aos inúmeros presentes, um chamava especial atenção, uma enorme caixa contendo uma TV-PLASMA  42”.

          Após cantar-se o “parabéns-prá-você”, seguido do hilário “com-quem-será?”, Gentil, emocionado, abriu a caixa da TV. E toma de tirar jornal velho, papel picado, cueca-com-freiada, bermuda rasgada na bunda, sapato furado, um sortimento variado de porcarias. Por último, bem lá no fundo, lá estavam elas, as afamadas galinhas de D. Iracema.

          Gentil, com os olhos marejados e a voz embargada de emoção, virou-se para Renato e disse:

              — Avisa lá pra D. Cremilda que dessa vez a coisa sai, eu agaranto.

          Sacou da pistola, deu três tiros de espoleta prá cima, e daí em diante a folia comeu solta e varou a madrugada...

                                Cabo Frio, 20 de março de 2007.

Sergio  Santa  Rita


 


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