Cebolinha 5.0

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        Na verdade ninguém sabe dizer o instante exato em que tudo teve início. Há controvérsias. Há versões que não correspondem aos fatos e há fatos que não se encaixam nas versões. Dizem as más-línguas que tudo começou quando o Valtinho displicentemente disse :

—     Mês que vem é o aniversário do Nanando ...

       Mas outros há que dizem que tudo se iniciou quando foi oficialmente divulgado pelo próprio Cebolinha :

—     O Kakaio me garantiu que tá tudo certo.

       De uma forma ou de outra, o que havia de concreto é que no dia 21 de junho ele faria 50 anos !!! A CIA e o FBI já sabiam, a KGB sabia desde a Guerra Fria e o MI-5 de há muito já colocara de sobreaviso todo o seu Departamento, incluindo até mesmo o Mr. Beans.

        As preliminares com o caseiro da Mansão-de-frente-para-o-canal tinham sido promissoras. Três parcelas : uma à vista, a segunda a perder de vista e a terceira só vista pelo Hubble.

        Tudo acertado, convites distribuídos, previa-se um festão, restava apenas rezar para que não chovesse, onde é que já se viu chover em festa de S. João ? Vade-retro, arrenégo, pé-de-pato , mangalô treis veiz !!!

        No dia aprazado, bem cedo , manhãzinha ainda, Neck invadiu o recinto talqualmente um general de cinco estrelas. Inspecionou utensílios, vistoriou estoques e determinou normas e regras para o preparo do cachorro-quente, do quentão, do pé-de-moleque, do local onde armar a fogueira e até mesmo do tamanho do pau-de-sêbo. Eita diabo ! danou-se !!! o homen tava arretado, tava cum a moléstia .

        Já detardezinha, quase ali pela hora do crepúsculo, o Dr. Domingues adentrou os jardins de esplendorosa grama inglesa comboiando um balão-de-São-João-destamanho, um despautério de um balão, coisa de se ver e admirar, veio deitado numa Scania-Vabis de dezoito rodas. Extremamente alegre e efusivo, assim que chegou o Dr. disse prá galera :

            —  Dei-dei..dei...dei...deixa comigo. Dei-deixa que di... que di... que di... que disso eu entendo. Vai...vai...vai ser du cá... vai ser du cá... vai se ducá... du cá...

        Aí a pessoa da patrôa dele tascou-lhe um beliscão, deu-lhe um esbrégue ao vivo e a cores e ele não conseguiu terminar a frase e todos nós ficamos até hoje imaginando o que é que ele ia dizer.

        Nessas alturas do campeonato, Neck por inalienável direito de usucapião já havia tomado posse das dependências da cozinha e adjacências. Naquele exato momento estava o insigne Mestre Gourmet determinando aos seus auxiliares, com precisão milimétrica, os segredos do preparo do molho do cachorro-quente :

            — Dezoito folhas de louro ! vinte e três gramas de páprica ! quarenta e duas gramas de noz-moscada ! duas cebolas e meia ! quatorze cabeças de alho ! três colherinhas de cominho ! E mexer, suavemente, por dezenove minutos !!!

        Quando mais tarde o Norival provou do cachorro-quente, o seu veredicto foi de uma isenção ímpar :

— Tá uma merda !!!!   

         Lá dos cafundós da cozinha, Neck refugou a ofensa :

          — Isso é um ogro . Dona Rita merece uma medalha...

        E aí acenderam a fogueira de quase treze metros :

           — Eita ! fogueirão bonito !!!

           — Ó ! o Turco vai soltar uma cabeça-de-nêgo  !!!

           — Quando é que vão soltar o balão ?

           — O Cebolinha chega estar dengoso.

           — Será que o Atchim vem na festa ?

           — E o Reynan ? O Mestre foi convidado ?

           —Com quem que o Duca tá zangado ?

           —Se balangar o balão, aí ele pega fogo ...

           —  Hay que balangar, pero com ternura ...

           —  Cadê o Gegê ? Cê viu o Gegê ?

           — Disseram que o cachorro-quente tá  demais.

           — Tá uma merda !!!

           — Tem um alvoroço lá na frente ...

        Foi aí, bem na justa hora em que estava tocando “Morango do Nordeste”  que deu-se o infausto e quase que o pé-de-moleque foi pro brejo.

           Foi nesse exato momento que um cidadão, mais a patroa lá dele e mais três molequinhos desses bem espoleta, e mais meia dúzia de oito ou dez malas,  penetraram o recinto da junina festa :

 — Mas que merda é essa na minha casa ?!?!

        Aí então chamaram Zécanundança prá desatar o nó-górdio, mode convencer o furioso cidadão:

— Quem que é o senhor ?

— Eu sou o dono desta casa !!!

— O senhor tem a escritura desta propriedade ?

— Tenho !!!

— Bão, aí neste caso , o senhor tem até uma certa razão. Mas não esquenta, vai entrando, e prova do cachorro-quente que tá um manjar dos deuses.

— Tá uma merda !!!

— A fogueira tá que é uma belezura.

— E os seus meninos vão participar do pau-de-sêbo.

— Fogueira ?!?! Pau-de-sêbo ?!?! Prá fora todo mundo!!! A festa acabou !!!

— Ah ! pai ! deixa,  a gente quer subir no pau-de-sêbo ...

        Foi assim que aconteceu, sem tirar nem pôr. 

        Já lá se vão cinco anos daquela inesquecível festa.

        Dizem que o Cebolinha está planejando fazer outra, mas que a dificuldade maior está em convencer o Vitor a emprestar a casa dele. Dizem que se não tiver fogueira o Vitor empresta. Mas balão e pau-de-sêbo vai ter, com certeza.

       Ah ! E vai ter o molho do Neck, é claro.

            — É uma merda !!!

Cabo Frio, 21 de junho de 2005.

Sergio  Santa  Rita


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