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Mais ou menos umas duas semanas antes, já havia uma grande expectativa quanto à realização do evento. Explique-se: envolvido em sua peregrinação anual à doce e sempiterna amada terra de Camamu, ainda não se tinha notícias de nosso festeiro-mór, nosso mui amado, idolatrado, salve-salve, Dom Cebolinha, por ora alçado ao emérito título de Dom, por obra e graça de Gardelon, El Porteño. Mas, como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, ei-lo de volta, com tanto cabelo como quando se foi, ou seja, quase nenhum...

Foi saudado por uma quase interminável série de perguntas:

— Cuméquié, Cebolinha, vai ter passeio ou num vai ?!?

— Cê brigou lá em Camamu ?!?!

— Ó ! teve um peão atrás de você, prá móde receber uns atrasado !!!

— Os pessoal da Polimix falaram que não vão mais lá na sua obra, nem cum réza-braba !!!

— Walter falou que o barco tá lá no cais à sua disposição.

— Cebolinha, bóta meu nome mais o do Zéco, por causa de quê a pessôa da minha patrôa falou que no dia que você marcar ela vai ficar doente !!!

— É verdade que o "Ilha do Brasil" vai assim meio que de apoio logístico, de forma a conferir uma certa sustância oficial ao evento ?!?!

— Olha, disseram que Dom Pedrito de La Feroza disse que vai e que só de Dramin e Engov ele já arrematou metade do estoque da Pacheco !!!

Calmo, de maneira tranquila e serena, Cebolinha tomou assento em sua cadeira cativa , e educadamente solicitou :

— Gêlo !!! Gêlo !!! Gêlo, cacête !!! Muito gêlo !!! Meu reino por uma fôrma de gêlo !!!

Serenados os ânimos, ele virou-se para seu fiel escudeiro Zéco e peremptoriamente determinou:

— Dia 1° de abril às 09h00 no cais defronte ao Chez-Michou. Os homens levam as bebidas, as mulheres os terços e os potinhos de água-benta. As crianças todo mundo toma conta. Neck não vai por causa de quê não dá prá levar o balão-de-oxigênio. Pé-de-pato ninguém leva, já tô levando os meus, faço questão. Biritação geral das 09h05 às 18h00. Churrasco a partir das 11h0, maré-alta às 16h00, retôrno às 16h30, novena às 16h45 . E tenho dito, e quem não pagar não vai.

No dia, hora e local aprazados, todos a postos, todos a bordo.

— Chega mais prá lá ...

— Eita! essa cerveja tá descendo redondo !!!

— Trouxe pé-de-pato prá quê , ô palhaço !!??!!

— Tô ficando mareado...

— Também, tu já tomou 18 Dramin !!!

— É muito longe ?!?!

— Daqui lá , é quantas horas ???

— Beeeemmm !! passa óleo nas minhas costas !!

— Manhhêêê !!! eu quero fazer xixi !!!

Chegados à bem-aventurada Terra do Xaréu do Beiço Rachado, encontraram um ilhéu desacorçoado:

— Estou aporrrrinhado !!! Vendi a rrrrrrede, o rrrrrremo, o barrrrrco, gastei tudo no rrrrredevú, me arrrrrebentei ...

E aí então, a indômita e valorosa embarcação atracou na Ilha do Farol , cujas alvas e límpidas praias são patrulhadas dia e noite por uma aguerrida guarnição de nossa briosa Marinha de Guerra.

A marujada ficou de olho no desembarque. A maionese só desandou foi quando tentaram desembarcar a churrasqueira. O pequeno marujo de serviço, coisa de dois dedos menor que Reynan, olhou prá Cebolinha e se encrespou:

— Na-na-ni-na-não !!!

E aí não teve Cebolinha que desse jeito no impasse. Desacostumado a debater com subalterno, Cebolinha foi se irritando e questionou rudemente :

— E quem é que manda nessa mérda aqui ?!?!?

O pessoal de bordo aplaudiu delirantemente :

— Dá-lhe, Cebolinha !!!

—Sujeitinho intransigente, uma droga de uma churrasqueirinha de nada !!!

— Mannhêêê !!! eu tô cum fome !!!

— Mulhé , vou dar uns cascudos nesse abestado desse menino ...

— Vâmo desembarcar no peito !!!

— Eu quero mijá .

— Não atiça que eu também tô cum vontade ...

— Baixinho fiadaputa !!!

Discute daqui, pondera de lá, eis que avistou-se ao longe um Oficial passeando na Ilha. Cebolinha calçou os pés-de-pato , não deu nem prá notar, e em exatos 1min e 15 seg foi e voltou, aplaudido na ida e debaixo de vaias na volta, ô povinho ingrato !!! E não deu mesmo pra desembarcar.

Próxima parada : Praia do Forno.

Sem Marinha prá atrapalhar, a gloriosa churrasqueira foi enfim desembarcada. E aí , Dom Pedrito assumiu os trabalhos. Riscou fogo, assoprou daqui, abanou dali ... e nada. E a turma cheia de fome:

— Mannhêêê !!!

— Dá um pão com farofa a êsse dezinfeliz, ó mulher !!!

Foi então que Zébelix , percebendo as dificuldades de Pedrito, segurou a peteca, ou seja, deu duas baforadas vigorosas no incipiente foguinho e em pouco tempo o braseiro dava gosto de se ver.

E então rolou um churrasco de responsa, as pessôas das patroas se acalmaram, deram de comer à gurizada e enfim a paz reinou naquele bucólico e aprazível recanto. Dizem que aí então Cebolinha tava com um sorriso tão plácido que até pensou-se em canonizá-lo, porém alguém de senso mais prático alembrou aos presentes do terrível bafo, e aí deixaram de lado tão herética idéia.

A volta ???

A volta foi um tanto controversa.

Uma parte da tripulação brincava de montanha-russa.

A outra parte brincava de novena.

Dizem as más-linguas que o Padre João Luis foi tantas vezes lembrado que até já pensam em chamá-lo para ir no ano que vem. Mas Cebolinha é contra, ele acha que assim como ele não vai em procissão, o padre não tem nada que fazer no passeio dele.

Tá certo, Cebola, esse povo cheio de ora-pro-nobis, todo de preto e com bafo de sacristia , isso deve de dar um azar disgramado a bordo, sai prá lá , desafasta, tesconjuro, pé-de-pato mangalô tres vezes...

Cabo Frio , 06 de abril de 2001.

Sergio Santa Rita