Cabistezas

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Quinca de Felix, conhecido por Tenente Come-Brasa, trabalhava como tropeiro levando peixe salgado em lombo de burro para várias cidades da região e de outras localidades, como Rio Bonito, Niterói e cidades serranas.

Tenente tinha um único defeito: bebia demais. Quando ia para Rio Bonito fazer entregas de peixe, às vezes pernoitava na casa do amigo Manoel de Moraes.

Numa dessas viagens, após fazer a entrega, Tenente tomou um porre medonho e, no auge da bebedeira, enviou um telegrama para a família no Arraial do Cabo comunicando seu falecimento. Assinou o telegrama em nome do amigo Manoel de Moraes:

“Tenente Come Brasa Morto.

Assinado: Manoel Moraes.”

Quando o telegrama chegou no Arraial, foi um desespero só. Era noite de forte temporal. O filho de Come-brasa correu para avisar sua tia Rosa. Esta saiu em disparada, com água pelas canelas, com o telegrama, para a casa de André da Costa Simas, influente político na cidade.

O funeral começou a ser montado, pegaram o cristo crucificado do Sr. Catuta emprestado e foram a Cabo Frio buscar o caminhão de Ítalo Sampaio para tratar de apanhar o corpo em Rio Bonito. Eva torrou quilos de café para o velório; tudo pronto, só faltava o defunto.

Naquela noite, ninguém dormiu no Arraial do Cabo e a comoção foi total. Mas, para surpresa de todos, no outro dia, às quatro horas da tarde, a tropa de burros de Tenente Come-brasa apareceu na cidade, com ele jogado em cima de um jumento. Os animais, de tanto fazer o trajeto, já sabiam chegar ao Arraial sozinhos. Deixaram o suposto defunto na porta de casa. O Tenente Come-brasa estava desmaiado de tanto beber.

Este fato inesquecível em Arraial do Cabo virou pasquim feito por Cecílio de Barros Pessoa:

Tenente Come-Brasa

Povo cabista e suas histórias famosas.

“E todos prestem atenção na morte de Come-brasa:

Quando veio o telegrama direto para sua casa

A prantina foi tão grande, o povo não perdeu vaza

As mulheres rezando pela alma de Come-brasa

E outras diziam: Jesus, que tenha ele debaixo de suas asas.

A noite estava medonha e a cachorrada latia

De vez em quando um aguaceiro no meio fuzilaria.

E fazia temer os homens aqueles que não temiam.

Mas era a cachorra de Mango que estava lá de guia.

Saiu José de Correia quando a notícia alarmou-se

Junto com Quinho seu filho no caminho encontrou-se.

O Sr. André da Costa Simas, um homem muito direito,

Pertencente ao funeral a gosto já tinha feito.

Cabinho desesperado, Emília mandou que fosse

Saíram logo direto para Ítalo Sampaio, o caminhão

Ia à toda como relâmpago de um raio para trazer Come-brasa.

Foi esse o primeiro ensaio.

A cama estava pronta com o Senhor crucificado

E um quilo de café Eva já tinha torrado

Sr. Paulo de Queiroz, Cacarro e Leonel saíram com a lista

Como homem mais fiel, para trazer Come-brasa e pagar o aluguel.

Às quatro horas da tarde chegou em casa o Tenente montado num

Jumento tocando os burros na frente, dizendo certas besteiras,

Dando parte de doente.

Cecílio de Barros Pessoa autor desta pagodeira

Tirou estes versinhos em ato de brincadeira, Tenente fez tudo isso

Por causa da bebedeira.”

Dias depois desse acontecimento, Tenente Come-brasa desafiou Sabonet para um duelo na Praia Grande. Os dois puxaram o gatilho ao mesmo tempo e uma bala bateu na outra, livrando-se, assim, da morte, Come-brasa.

Fonte: site agoracabofrio