Júlio Cesar

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Durante oito anos, Bengo foi funcionário da Álcalis, mas, em 1960, deixou a empresa e convidou seu compadre – Manoel de Zoli – para comprar, em sociedade, um barco de pesca. Tudo combinado e foram para a Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, adquirir a tão sonhada embarcação.

Um mês após a compra, combinaram de ir pescar na região. Iriam às 16 horas, porque, às 19 horas, iriam ao cinema. Convidaram Chico de Avelino.

Este não estava se sentindo muito bem, com dor de dente, e, do cais, resolveu não ir. Bengo e Manoel de Zoli foram pescar anchovas nos Franceses. Na volta, já no Boqueirão, o barco apresentou defeito no motor. Manoel de Zoli disse ao compadre que não se preocupasse, pois ele próprio iria consertar o barco. O tempo foi passando e o barco continuava quebrado. Quando Bengo atirou as amarras, já não tinha profundidade suficiente: com os fortes ventos, o barco saiu à deriva. A noite chegou e eles perceberam que nada mais podia ser feito, a não ser aguardar que, com o clarear do dia, alguém viesse em seu socorro.

Amanheceu e eles não conseguiam avistar terra alguma. Uma ventania assustadora os levava cada vez mais longe. Meio-dia, duas horas da tarde... e nada de socorro. Mais um dia... e nada. No segundo dia de desespero, para piorar a situação, Bengo enfiou um prego no pé e começou a delirar de febre: para onde olhava, via o sol escaldante. Seu compadre Manoel de Zoli, com o sol forte na cabeça e a tensão nervosa, também delirava. Dizia que estava ouvindo seu pai a chamar-lhe. Bengo pedia para que o outro ficasse quieto, pois o pai já havia falecido há muitos anos. Implorava que seu compadre ficasse calado.

A essa altura, em terra, as famílias estavam em total desespero. As esposas queriam usar luto. A de Bengo – com três filhos muito pequenos – não fechava a casa para nada: a porta permanecia aberta o dia todo. Nem para o café, o fogão era aceso. As famílias mostravam-se em pânico com o desaparecimento de ambos. A esposa de Manoel de Zoli, grávida, quase

parindo. As mães e os pais dos desaparecidos dormiam à base de remédio.

A pequena vila de pescadores estava em luto. Em Arraial do Cabo, a tristeza tomou conta de todos.

No terceiro dia à deriva, os dois avistaram um navio ao longe e, por sorte, Bengo havia amarrado no barco uma camisa branca para secar. Este pequeno detalhe chamou a atenção de dois navios que apontavam no horizonte. Um deles se aproximou do pequeno barco, jogando um escaler para o resgate.

Na hora de pular para o navio, Manoel de Zoli caiu no mar e só não morreu afogado porque um marinheiro se jogou, salvando-o.

Já a bordo, um intérprete procurou saber o que tinha acontecido. O comandante perguntou a ambos se queriam ficar no barco, com comida e água, até o socorro chegar. Os dois recusaram na hora: queriam ir com toda a tripulação para terra. O pequeno barco também foi levado para cima do navio, pois Bengo havia dito ao comandante que aquele barco era o

ganha-pão de suas famílias. Foram levados à enfermaria do navio, onde se constatou que Bengo estava com princípio de tétano no pé. Isso fez com que ele ficasse internado na enfermaria do navio por cinco dias.

No quinto dia, o comandante chamou os dois pescadores e mostrou o barco deles totalmente recuperado, com pintura nova e o motor consertado.

Como o barco ainda não tinha nome, o comandante colocou o mesmo do navio salvador: “Júlio César”.

A felicidade estava completa, à exceção de um detalhe: quando os dois se deram conta de sua localização, perceberam que estavam em Fernando de Noronha. Bengo perguntou ao comandante se eles não iriam para o porto do Rio de Janeiro. O comandante foi taxativo: disse ter-se comunicado, por rádio, com o comandante de um navio que estava à procura dos dois e que não os levaria para o porto do Rio de Janeiro, pois o “Júlio César” estava com viagem marcada para a Itália, para onde os dois também iriam. Ao ouvir o comunicado do comandante, Bengo começou a chorar. Tentando confortá-lo, o comandante disse que não chorasse, porque tinha um filho de sua idade, 22 anos, e que os dois poderiam passear pela Europa.

Até o quinto dia, Manoel de Zoli ainda estava meio abobado e não se deu conta do que se passava à sua volta. A tripulação fez um comunicado à Capitania dos Portos do Rio de Janeiro sobre o resgate, que, por sua vez, contatou a Capitania de Cabo Frio. Esta avisou os familiares. A notícia saiu em rede nacional pelo Repórter Esso, na voz do famoso Heron Domingues.

O navio rumou até Nápoles. De lá, seguiram para a Espanha. Na Espanha, a estada durou um mês e treze dias, de onde Bengo mandou uma carta à família, avisando que chegariam no Brasil no dia 30 de outubro.

Os forasteiros foram encaminhados ao Consulado do Brasil na Espanha.

O tratamento dispensado aos nobres visitantes, contudo, não foi dos melhores. Hospedaram-nos em um hotel, por conta do consulado. Após um mês de estada, o cônsul brasileiro perguntou-lhes se preferiam voltar ao Brasil de avião ou no mesmo navio que os resgatou. Eles optaram pelo navio Júlio César. O comandante deste navio enviou uma carta ao consulado no Brasil, relatando que estava levando os pescadores.

A notícia se espalhou e várias autoridades brasileiras foram aguardá-los no Porto do Rio de Janeiro. O presidente Juscelino Kubstcheck não pôde comparecer, mas mandou um representante. Enquanto isso, no Arraial do Cabo, a capitania dos portos havia colocado à disposição dos familiares dos pescadores dois ônibus até o porto do Rio, onde poderiam recebê-los. Os ônibus lotaram. A Álcalis dispensou seus quatro mil funcionários, para que

pudessem receber Bengo e Manoel de Zoli.

Quando o navio Júlio César chegou na entrada da barra do Rio de Janeiro, os pescadores já avistavam o povo do Arraial no cais do porto. O almirante da Marinha, Adalberto Nunes, foi o primeiro a recepcioná-los e logo quis saber acerca do tratamento dispensado pelo consulado brasileiro na Espanha.

Responderam que o tratamento não tinha sido bom. Com isso, o cônsul brasileiro foi destituído do cargo na Espanha.

O comandante do navio, ao ver a esposa de Manoel Zoli grávida, pediu para que, se o bebê fosse menina, colocasse o nome de Maria Antonieta, em homenagem à sua esposa e, se menino, Tito Caossi, em sua homenagem.

Da Praça XV, entraram no ônibus e foram para o Arraial, junto com as famílias e os amigos. Ao se aproximarem da sexta elevatória da Álcalis, os quatro mil funcionários vieram correndo atrás do ônibus até o Clube Guarani, onde uma bela festa estava programada. Houve festejos na casa de Bengo e Manoel de Zoli durante oito dias seguidos.

O comandante do navio, Tito Caossi, foi condecorado com medalha de ouro e a Marinha italiana aposentou o marinheiro com todos os direitos militares, pelo episódio ora relatado. Pouco tempo depois, o filho de Manoel de Zoli nasceu e recebeu o nome do comandante. O menino foi batizado a bordo do navio Júlio César.

Quando a esposa de Bengo teve um bebê, também colocou o nome de Júlio César, em homenagem ao navio. Todos ficaram amigos e Tito Caossi prometeu ir um dia ao Arraial, para visitá-los. Infelizmente, pouco tempo após sua aposentadoria, o comandante faleceu e não pôde visitar os amigos náufragos.

Todo fim de mês, o navio aparecia no mar do Arraial do Cabo e as pessoas que estavam na Praia Grande corriam e chamavam os amigos para ver o navio branquinho passando no horizonte. Naquela época, todos os meninos que nasceram no Arraial do Cabo foram registrados com o nome de Júlio César, em homenagem ao navio. Uma praça em Arraial também foi assim batizada, mas, quando da administração municipal do Dr. Hermes Barcellos, esse nome foi retirado.

Após essa aventura, Bengo e Manoel de Zoli continuaram pescando no barco, mas, no primeiro defeito, os dois o venderam. Hoje, o barco Júlio César pertence a “Felix Mergulhador”.

Bengo vive até hoje, pescando suas anchovas em Arraial, Cabo Frio e Búzios. Manoel de Zoli morreu em 1998. O navio Júlio César ainda está na ativa e faz o trajeto Itália/Portugal

Fonte: site agoracabofrio do livro Cabistezas