Jovens tardes de domingo

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          A Vila Nova sempre foi um celeiro de craques na época mais dourada e ingênua do futebol amador. Em seu campo quase à beira-mar desfilaram garbosos artistas da bola. Era quase um ritual: jogar, vencer e depois tomar um porre da batida-de-limão preparada pelo Euclides.

           Bem, assim desta forma colocada, você já deve estar percebendo que estou me referindo ao Atlético da Vila F. C. . E o Euclides sozinho já valia por um time inteiro de trapalhadas e gargalhadas. Destro, titular absoluto do 2º quadro, não havia partida em que ele não chutasse a própia canhota, indo ao chão, de forma a fazer rolar de rir os dois times e a platéia. O seu pé direito nunca sabia onde estava o esquerdo e vice-versa, de forma que ele precisaria de um GPS para saber onde estava a bola. Mas nunca jamais alguém fará uma batida-de-limão como Euclides. Nunca...jamais...

           Vai daí então que um dia o aguerrido e praticamente imbatível time da Vila foi convidado para um amistoso onde enfrentaria o portentoso time do Manguinhos F. C. , lá pras bandas de Búzios. Sob a batuta de “Sêo” Tute , técnico calejado por incontáveis pelejas, admirado por seus comandados e temido por seus adversários, já fazia tempo que o Atlético ansiava por aquela partida. A rivalidade entre os dois times evidenciava a disputa pelo título de melhor time da região. Ambos se consideravam o maior, o melhor, o mais vitorioso e aquela partida seria um tira-teima, seria uma partida inesquecível.

           E assim , naquele início de tarde de domingo o time do Atlético a bordo de um velho caminhão Ford , um tanto combalido mas de ampla carroceria ,  partiu rumo aos domínios do adversário. Ao volante, Bibite , doublê de motorista e ponta-direita de extrema velocidade. No decorrer de várias partidas era comum Bibite ultrapassar tão velozmente a linha de fundo que era preciso implorar a ele para parar e trazer a bola  de volta porque o jogo tinha que continuar. Mas, deixemos de entretantos e vamos direto aos finalmentes daquele sempre lembrado jogo.

           O time do Manguinhos era realmente um excelente time e muito parelho ao da Vila. Porém, naquele dia quem estava desequilibrando o jogo, dando um verdadeiro show de bola era o ponta-direita do Manguinhos.

           Menino novo de pequena estatura, na flor-da-idade, por volta dos dezessete, ele estava pintando e bordando prá cima do lateral-esquerdo do Atlético. Deu o drible da vaca, deu um lençol, deu uma “caneta”, o menino destampou o seu variado repertório e pelo jeito da coisa, era por ali que o Manguinhos ia se dar bem. Mas foi aí que o Manel Barriga Verde, o afamado beque-central do Atlético da Vila resolveu dar um basta na situação:

           — Cuméquié, Agildo ?!?!?! Tu vai ficar de cerimônia ???? Dá logo uma porrada nesse moleque !!!!

           Bem que o Agildo estava tentando, as três primeiras porradas que ele deu pegaram no vazio. O pontinha já estava até ficando abusado. Fez que foi mas não foi e acabou indo, e quando Agildo deu por si quase que foi gol, só não foi porque o Manel abriu sua caixa-de-ferramentas e isolou a bola , o pontinha e mais um casal de quero-quero pela linha de fundo:

           — Cuméquié, Agildo ?!?!?!

           Foi daí que na firula seguinte o Agildo finalmente acertou o pontinha. O moleque subiu, subiu, subiu e subiu. Serjão, centro-avante rompedor e exímio cabeceador, lá da zona-do-agrião do adversário, vaticinou:

           — Tudo que sobe, tem hora que desce ...

           Custou mas desceu, e desceu esparramado. Mas aí desceu também, da arquibancada, a mãe do pontinha. A velha senhora gostava de futebol e mais ainda do repertório do seu pimpolho. Indignada com aquela falta, quase uma tentativa de homicídio,  e munida de uma vistosa sombrinha colorida de argolada ponta de metal, a veneranda senhora cobriu Agildo de porrada:

           — Ai ! dona !!! Ai ! dona !!! Ai ! dona !!! Quequéisso, minha gente ?!?!?!

           Lá da zaga central, Manel Barriga Verde, também conhecido como “beque vick-vaporub” pois suas entradas nos incautos adversários pegavam peito-nariz-costa-e-garganta , lá da zaga Manel estumou :

           — Péga ele, dona !!! Péga ele, dona !!!

           Agildo bateu o recorde mundial dos 120 m rasos e homiziou-se no vestiário. E daí prá convencer ele a voltar para o 2º tempo foi uma luta, só mesmo em obediência a “Sêo” Tute :

           — Mas o senhor me tira aquela dona de lá !

 

 

           Bem mais tarde, jogo acabado, de placar O x O , descobriu-se que o pontinha e o Agildo eram irmãos. O pai do Agildo, lá nos outroras , foi fazer um serviço em Manguinhos e acabou fazendo um “extra” , um veloz , presepeiro e habilidoso “extra”.

           Serjão , testemunha ocular do ocorrido, tempos depois me fez um resumo da ópera :

             — “Sêo” Chico havéra de ter sido muito bom de bola. Produziu defesa por aqui e ataque acolá. Será que ele providenciou algum camisa 10 por aí ?!?!                           

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            Jovens tardes de domingo,

                                          tantas alegrias,

                                                  velhos tempos, belos dias ...

Cabo Frio, 30 de janeiro de 2013.

Sergio Santa Rita


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