A coleção

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Naquele final de tarde Boi-lambeu não estava de bom-humor. Disposto a fazer um “Samba-em-Berlim”, pediu uma dose da marvada e uma coca pequena tipo caçulinha. Careca que estava de bom-humor, lastrou uma dose cavalar da purinha e foi ao freezer buscar a mini-coca. Nesses entretantos, Andrélitro acordou de sua longa siesta vesperal e notando aquele desparrame de cachaça deu seu sincero e abalizado parecer :

          — Pô, Careca !!! Uma dose dessas dá pra lavar os sovacos, as virilhas, dar uma pro santo e ainda tomar um baita porre .

          Careca em vindo de retorno da freezer, remediu aquele despropósito, botou metade no barrilete da especial e olhando bem no fundo dos olhos de Boi-lambeu apresentou-lhe o restante que ainda era uma puta duma dose. Boi-lambeu engoliu em seco o prejuízo mas não passou recibo:

          — Andrélitro, você fala demais !

           Daí ele avistou Serjão aboletado na ponta-esquerda do bar, da banda do lado em que fica o poste torto que vitimou o caroço do João Caroço. Ainda aporrinhado com o lance da cachaça, Boi-lambeu decidiu destampar o seu baú de lamúrias e lamentações:

           — Não agüento mais com mamãe !!!

           — Não me diga isso rapaz !

           — Pois é ! Mamãe invadiu a minha privacidade.

           — Então me diz aí o que que foi que ela fez. Ela não fez foi nada, você é que só vive aprontando.

           — Ah! é !? Tu tá com pena? Leva ela pra você.

           — Mãe só se tem uma. Duas já é até castigo.

           — Deixa de molecagem. Jobel sempre me disse : “ Serjão só véve de sacanage. “

           — Tá bom ! Tá bom ! Mas me conta aí, o que  que foi que a velha aprontou ?

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            Tempos depois, o Serjão , testemunha auricular do ocorrido, me confidenciou o destampado do baú de Boi-lambeu.

           Um certo dia em que a sua - lá dele - língua estava desembestadamente dando saltos mortais no recinto etílico de sua -  lá dele - boca, Boi-lambeu deixou descuidadamente destrancada  a porta do seu quarto. Aí a sua mãe – é a dele! é a dele! – aproveitou-se da oportunidade ansiosamente esperada para finalmente realizar uma   faxina em regra naquele covil.

           Munida de vassoura, rodo, balde, esfregão, 03 litros de VEJA LIMPEZA PESADA, 05 litros de DESINFETANTE MATA-TUDO, 04 garrafinhas de DIABO VERDE, 01 GARRUNCHA da Guerra do Paraguai, 02 TERÇOS abençoados pelo Papa no Maracanã, 01 FIGA-DE-GUINÉ benzida por Mãe Menininha, a velha senhora adentrou aquele profano recinto. Em sua primeira investida ela passou o rodo por debaixo da cama: arrecadou dezoito vasilhames de ROMARINHO. Na segunda passada vieram mais doze.

           — Misericórdia !!! Quequéisso minha gente !?!?! Me acóde Nossa Senhora dos Desencaminhados !!!

           Daí ela viu uma panela-de-pressão por riba de uma cômoda:

           — Olha lá a minha panela que faz tanto tempo que eu estou procurando !

           Aberta a tal panela, no seu interior estavam homiziados seis ROMARINHO zero-Kilômetro.

           — Deus-do-céu !!! Que coleção é essa ?!?! Vai gostar de ROMARINHO assim lá na .......

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           Daí então ela excomungou aquela esbórnia toda, jogou tudo fora e faxinou geral o quarto. Mais tarde ela tentou convencer Boi-lambeu a colecionar GUARAVITON, no que não obteve o mínimo sucesso:

           — Pô ! Mãe !!! GUARAVITON não dá aquela tonturinha...

Cabo Frio, 28 de janeiro de 2013.

Sergio Santa Rita


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